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O Eng. Cristiano Oliveira responde: como entrar e se manter ativo no mercado das engenharias

por Redação 360 | 22/03/2022 | Atualizado em 23/03/2022

A caminhada profissional não é fácil para ninguém. Todos acabam tendo altos e baixos na trajetória. Claro que alguns erram mais por não se prepararem adequadamente para os desafios que lhe são colocados. Mas, em outros momentos, o que pesa mesmo é a situação do mercado. E, nestes últimos anos, temos sido colocados num grau ainda mais elevado de dificuldade, principalmente por conta do cenário pandêmico e mais. A pergunta que fica é: “Ainda vale a pena ser engenheiro no Brasil?”. Quem responde é o nosso colaborador 360 e engenheiro civil Cristiano Oliveira! Confira!

Eng. Cristiano Oliveira
Imagem de Eng. Cristiano Oliveira – Colaborador 360
1 – Para começar a nossa entrevista, conte para nós, de forma breve, por que você escolheu trabalhar com Engenharia. Depois, quais foram os desafios encontrados para a sua formação no período da faculdade, em termos de ensino dentro de sala de aula, analisando principalmente como as engenharias são valorizadas no setor universitário brasileiro.

“Eu escolhi fazer Engenharia no ano de 1996. Na época, eu trabalhava em uma empresa do ramo alimentício e decidi que não queria fazer aquilo para o resto da vida. Então, como gostava e tinha facilidade com exatas, acabei encontrando na Engenharia uma formação que eu me identificasse, embora, na época, não tivesse a mínima noção do que um engenheiro realmente fazia.

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Naquele ano (em 1996), eu acabara de terminar o Ensino Médio (na época não chamava assim). E tinha um fator desafiador a mais: eu não tinha dinheiro para pagar uma faculdade. Nesse momento, avaliei as opções e a única opção era fazer uma universidade pública. Decidi fazer Poli. Após essa decisão, foram 3 anos de cursinho para conseguir entrar. Objetivo realizado, consegui passar na Fuvest na 3ª tentativa e o sonho de entrar na faculdade havia sido realizado. Agora o sonho era sair…

O cenário era muito pouco favorável: morava na região de São Miguel Paulista, não tinha carro, emprego e dispunha de um ‘patrimônio’ de R$1.500,00 que havia ganhado no processo de rescisão da ‘firma’.

Eu ia de ônibus e perdia em média umas 4 hs por dia só de traslado. Usava esses momentos para estudar, repassar a matéria, dormir… Ou seja, transformar esse ‘tempo perdido’ em ‘tempo útil’.

O curso de engenharia na Poli é integral, mas com algumas janelas. Nesses intervalos eu dava aulas particulares de Física e Matemática. Além disso, resolvia as listas de exercícios assim que elas saíam, para poder vender no xerox: além de estudar, conseguia R$15,00 por lista. Parece pouco (e é!), mas naquele tempo, conseguia 7 fichas para o bandejão (cada ficha na época era R$1,90).

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Foram anos desafiadores! Mas não mudaria absolutamente nada, porque foi nessa época que aprendi a realizar metas pessoais (passar na Fuvest), organizar o tempo (morar longe, estudar, trabalhar, me formar em 5 anos…) e fazer o que eu havia me programado para fazer, que era cursar Engenharia no maior centro universitário da América Latina, a USP.
Quanto ao ensino em sala de aula, o desafio era passar e me formar mesmo.

Lembro nos primeiros anos da faculdade, via diversos colegas que costumavam ser referências em relação a exatas em seus colégios, chorando desesperados porque haviam tirado seu primeiro zero ‘meu pai vai me matar’, ‘isso nunca aconteceu comigo’… depois superaram e aprenderam que o jeito de estudar no colégio era bem diferente do jeito de estudar na faculdade.

Há professores muito bons e outros não. O fato é que aprendi a aprender sem depender da variável ‘professor’ em algumas matérias. Durante o processo eu não gostava, evidentemente, preferia quando havia um professor competente para passar a matéria. Mas, diante da adversidade, ou a gente xinga ou a gente encontra um jeito de superar a adversidade.

Hoje, vejo que aprender a aprender foi uma das maiores competências que eu desenvolvi, porque o mercado hoje é muito dinâmico e para você ficar para trás, basta ficar parado.”

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Imagem reproduzida de poli universidade – G1 – Globo
2 – Agora, vamos pular para a realidade do mercado atual. Sabemos que, desde a sua formação, o mercado mudou, se aprimorou ainda mais e passou a exigir outras qualidades e habilidades dos candidatos. Com base na sua vasta experiência, e olhando para trás, como você enxerga essa evolução, principalmente nos últimos anos, com a crise econômica e a necessidade de crescimento de alguns setores?

“Olhando sob o prisma técnico, desde a minha formação, houve mudanças, sem dúvida. Principalmente em relação às tecnologias (lembre-se que em 2003, praticamente 20 anos atrás, ainda havia barreiras tecnológicas que hoje não existem, os desafios são outros). Na Engenharia, portanto, é uma necessidade a atualização pessoal em relação às novas tecnologias, entender seus usos específicos e nos tornarmos aliados do que há de melhor no mercado (aprendizagem constante). Entretanto, como a cadeia da construção civil é muito extensa (estudos de viabilidade, projeto, planejamento, gestão da construção, gestão do ativo, e mais) e atinge diversos níveis de clientes (desde o ‘pessoa física’, que quer construir sua casa, até as multinacionais, que demandam grandes projetos e obras), há grandes distorções entre os modos de produção. Ou seja, há empresas no mercado da construção que já usam os benefícios tecnológicos a seu favor e há os que ainda trabalham como há 50 anos.”

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Imagem reproduzida de engenharia construção civil – Mapa da Obra

“Olhando sob o prisma mercadológico, no Brasil, o setor da construção civil está submetido a ciclos de picos de demanda e momentos de baixa. No momento atual, estamos vivendo uma retomada, caminhando para mais um pico nos próximos anos. Um dos fatores que torna esse pico incerto é a instabilidade política que vivemos. Isso afasta investimentos, mas não me aprofundei nisso.”

“O fato é que há muito a ser resolvido ainda em termos de infraestrutura (ainda sofremos com as enchentes, estradas em péssimo estado de conservação, coleta parcial de esgoto, dentre outros) e há demandas internas por profissionais para fazer acontecer.”

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“Sendo assim, o mínimo que se espera de um bom profissional, é o domínio da sua técnica. São as chamadas ‘hard skills‘. Além destas habilidades, temos ainda as habilidades interpessoais, ou as ‘soft skills‘.”

3 – Explique para os jovens leitores do Engenharia 360 o que são hard skills e soft skills e o que, dentro desses conceitos, seria fundamental para um candidato na área de Engenharia apresentar, pensando em uma seleção de vaga.

“Como dizia, as ‘hard skills’ são as habilidades técnicas adquiridas. Um carpinteiro precisa saber conceitos específicos do seu ramo. Assim como um médico, um dentista e um engenheiro. O mínimo que se espera de um bom profissional é que ele domine suas técnicas!

Já as chamadas ‘soft skills‘, eu costumo dizer que deveriam se chamar ‘fundamental skills’, porque são fundamentais mesmo, deveriam ser estimuladas, ensinadas e praticadas, porque são importantes para um ambiente de trabalho saudável – não só no ambiente de trabalho, na vida em geral.

São exemplos de soft skills: capacidade de liderança, saber trabalhar em equipe, formular bem objetivos, saber dar e receber feedback, gestão inteligente do tempo e das tarefas, comunicação assertiva, resiliência e postura solucionado.

Esta são habilidades sutis, e sua avaliação se dá pelo resultado no dia-a-dia. Já tive a oportunidade de trabalhar em times com profissionais que apresentavam muitas soft skills, e outros menos.

A diferença sentida na pele é gritante: trabalhar com um time técnico competente e que sabe se comunicar é realmente prazeroso. Você enxerga claramente seu papel e importância no todo.

O contrário, no entanto, é quase uma tortura!

O aprendizado que tirei dessas situações é o de sempre estimular a equipe a desenvolver as soft skills!

Algo que acho de extrema relevância: TODOS somos muito bons em, no mínimo, algum soft skill. O que ocorre é que, às vezes, não sabemos nem o que são e nem sabemos que temos por falta de autoconhecimento das nossas habilidades.

Então, um bom caminho é: conheça sobre soft skills, mapeie aquelas em que você é realmente bom e coloque foco nelas. Digo isso porque já vi pessoas mapeando suas skills e querendo desenvolver as que ele não é bom. Esse é um caminho também, mas antes, reforce aquilo que você é bom! Depois, se você almeja ser um profissional de destaque e tocar grandes projetos, desenvolva aquelas mais necessárias à sua área.

Importante salientar que, conhecendo ou não as suas soft skills, um recrutador bom saberá identificar seus pontos fortes e fracos. Por isso fazem dinâmicas e, se perceber bem, essas dinâmicas avaliam muito menos a parte técnica e mais a sua parte comportamental.

Nesse sentido, conhecimento é poder. Autoconhecimento, então, é a própria ‘força’.”

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Imagem reproduzida de soft skills – LEC
4 – Aliás, falando em emprego, quais as dicas que você daria, neste momento, para os recém-formados e profissionais que estão voltando a atuar como engenheiros? Quais as estratégias eles devem adotar para conseguir encontrar não apenas um emprego, mas aquele emprego que vai lhe trazer bons retornos financeiros, de conhecimento e crescimento de carreira.

“O principal é fazer aquilo que você é bom. E ser bom no que faz!

Mas precisa saber no que você é bom… e realmente não é algo tão óbvio.

A responsabilidade da gestão da carreira de cada um é algo totalmente individual. É você quem define com o que quer trabalhar, por quanto tempo, onde quer chegar…

Bons rendimentos são reflexo de trabalho bem feito! Se conseguir um emprego que pague bem, mas se você não entrega resultado, esquece! Não se sustenta. Por outro lado, se você assume o compromisso de agregar valor à sua empresa, à sua carreira e à sua pessoa, é inevitável bons retornos financeiros.

Se você se formou e busca um bom lugar para trabalhar, é fundamental entender seu papel na empresa e traçar seu plano de carreira. E, para isso, é fundamental ter alguém em quem se espelhar: um líder que você quer ser daqui 5 anos, aquele profissional que você admira…, porque você vai ter condições de conversar e entender como ele chegou onde você quer estar.

E aí, o que observo no dia-a-dia é que as pessoas têm dificuldade em definir onde elas querem estar.

‘Ah Cristiano, mas não admiro ninguém no meu trabalho’. Então recomendo que mude de trabalho/ambiente. Ou passe a vida reclamando.

Estamos falando do Brasil, mas há inúmeras oportunidades em escritórios de Engenharia no mundo inteiro. Citarei dois exemplos: a Europa é um continente carente de mão-de-obra, em função da sua pirâmide populacional está quase invertida (a base muito menor que o topo); a Austrália está vivendo um “boom” do mercado da construção civil e super-empolgados com as possibilidades da Metodologia BIM. Há opções para quem busca se desenvolver e tem liberdade de mobilidade.

Seja no Brasil, seja fora, ninguém vai te dar um emprego para você trabalhar! Vão te pagar para você trazer soluções e agregar valor em termos de produtos e serviços. Quanto antes entender isso, melhores serão seus resultados.
Portanto, seja lá onde você for trabalhar, faça o seu melhor! Desenvolva-se sempre – por você!

Os trabalhos, chefes, empregos, são temporários. Mas o tempo vai recompensar seus investimentos em você mesmo!

Aprimore constantemente suas hard skills e soft skills. Aprimore constantemente a si mesmo. E em algum momento (quanto antes melhor), define quem você quer ser quando crescer e trace o caminho para atingir esse objetivo.”

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Imagem reproduzida de Metodologia BIM – Grupo AJ
5 – Você já participou de algumas lives pelo 360, sempre incentivando que os estudantes e profissionais formados continuem alimentando constantemente a sua criatividade e fome de saber. Afinal, este é o melhor modo de se manter atualizado, não é mesmo? Mas como você indica que eles canalizem esta força de vontade e dedicação além dos livros? Na sua opinião, é possível aprender através da prática – extraclasse ou extra escritório – como?

“Sem dúvidas alimentar a curiosidade, criatividade e o desejo de entender as coisas é um bom caminho para se manter atualizado.

Manter-se atualizado na sua área, é imprescindível. Fundamentalmente, se você quiser se destacar e construir uma carreira sólida.

Dessa forma, são diversas as maneiras de aprendizagem:

  • Cursos específicos com foco em aprimorar as hard skills (aquele curso ou vídeo do YouTube daquele software, ou aquela nova tecnologia empregada em determinado lugar do mundo, por exemplo).
  • Desenvolver inteligência emocional e soft skills (porque o mercado é por vezes agressivo, você encontrará pessoas não tão preparadas quanto você e, principalmente, porque quem se conhece, conhece também aos outros e desenvolve maior capacidade de compreensão, empatia e sangue-frio para tomar decisões quando o ‘bixo tá pegando’).
  • Desenvolvimento pelo trabalho: é totalmente possível e recomendado desenvolver capacidade de observação e aprendizagem com os pares. Essa foi a principal fonte de aprendizagem no início de carreira, quando outros engenheiros me passavam os serviços e explicavam do que se tratava, o que precisava ser feito, quais os pontos de atenção, etc.
  • Eu fui muito pelo caminho dos cursos e treinamentos. Aprendi, estudei e ainda estudo muito sobre soft skills, já que hoje trabalho liderando equipes de projeto e a principal variável a ser cuidada numa equipe são as pessoas.”
6 – Para encerrar, gostaríamos que você desse uma opinião sobre o drama que alguns engenheiros vêm enfrentando nos últimos anos. Em diversas reportagens publicadas na mídia entre 2020 e 2022, profissionais com até mesmo mestrado e doutorado relatam o drama do desemprego. Como você enxerga que será o futuro destas pessoas? Ainda há vagas para as engenharias no Brasil? Diga por que, ao ler estas notícias, um jovem não deveria desistir da sua graduação?

“O problema sempre é o equilíbrio, ou encontrá-lo.

Mestrado, doutorado, pós são exemplos de aprimoramento das hard skills. São, inclusive, requisito para determinados trabalhos. Mas não são o único caminho e nem são garantia de emprego. Não adianta nada uma empresa ter um gênio com QI 170 que não é capaz de comunicar sua genialidade ou compartilhá-la para gerar valor para si. Da mesma forma, um cara que fala super bem em público, é resiliente e bom líder, sem bagagem técnica nunca será um bom gerente de Engenharia.

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Imagem reproduzida de hard skills – Lugarh

No meu caso, cheguei a começar duas vezes o mestrado e interrompi o primeiro por questões pessoais e o segundo porque tomei uma decisão naquele momento de: ou concluir o mestrado no próximo ano, ou viajar para o Rio de Janeiro e passar lá 4 anos em uma obra na área naval, em um estaleiro, realizando a conversão de duas plataformas de exploração de petróleo.

Nessa decisão pesou justamente isso: ter mestrado ou doutorado é bom, mas eu queria ter experiência de campo, já que meus primeiros 10 anos de formado foram em escritório de projeto. Minha prioridade foi me desenvolver como engenheiro e não me especializar através de uma titulação. Escolhas! Foi o caminho que vislumbrei e percorri.
E por que estou contando essa pequena história? Porque haverá sempre emprego para quem se capacitar e tomar consciência disso. No Brasil, as opções acabaram se limitando em virtude dos últimos anos terem sido bem desafiadores.

Mas, certamente, quem está na graduação e se identifica com o curso, evidentemente deve concluí-lo.
E já se antenar nas possíveis áreas de atuação, conversar com profissionais dessas áreas, entender suas rotinas, habilidades técnicas requeridas, etc.

Então, vislumbro nos próximos uma demanda crescente por profissionais. Sempre haverá vagas para as Engenharias, algumas mais limitadas, outras menos, mas sempre haverá vagas e demanda por bons profissionais.
Há inúmeros ‘lugares vagos’ esperando gente competente para assumir.”

7 – Gostaria de passar alguma mensagem final para os nossos leitores do Engenharia 360? Vou continuar recomendando que se capacitem sempre, essa estrada não acaba nunca! E quanto mais você se capacitar e agregar valor a si, maiores as chances de ESCOLHER onde você quer estar.

“Mas deve ser uma capacitação, além da técnica.

Entendam como funcionam sob pressão e se conheçam no momento do stress.

Muitas pessoas são contratadas por suas habilidades técnicas, mas dispensadas por falta de habilidades comportamentais.

Hoje, grandes empresas já levam em conta muito mais a parte comportamental do que a técnica, porque sabem que a técnica se desenvolve mais facilmente que os comportamentos. E quem se conhece, sabe fazer o Marketing correto de si mesmo, conhecendo seus pontos fracos e fortes. Isso impressiona positivamente o pessoal de RH (que é o primeiro filtro num processo seletivo).

Quem sabe isso e aplicá, tem um mundo inteiro para explorar, se assim desejar.”

E claro, continuem acompanhando nossas matérias por aqui, no Engenharia 360! Com certeza buscamos compartilhar aquilo que sabemos que pode agregar aos nossos amigos e seguidores!

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