Engenharia 360

Especial Dia Internacional da Mulher: entrevista com a arquiteta paisagista Caterina Poli

Engenharia 360
por Redação 360
| 07/03/2022 9 min

Especial Dia Internacional da Mulher: entrevista com a arquiteta paisagista Caterina Poli

por Redação 360 | 07/03/2022

Estamos vivendo uma fase de mudanças rápidas e agressivas. As pessoas se veem numa situação muito séria de isolamento social, onde passam a ficar mais tempo reclusas em suas áreas privativas. Mas, por outro lado, e talvez por esse motivo, elas também passaram a perceber melhor as áreas verdes e abertas de suas casas e escritórios. Isso obviamente aumentou o interesse de todos por assuntos ligados ao mundo do paisagismo – seja para casas de cidades, praias ou campos -; e assim, por consequência, houve uma maior valorização da categoria. Até mesmo podemos ver, nos últimos anos, uma reinvenção da profissão, pensando em criar propostas de espaços de jardins e de convivência que realmente mudem a rotina das pessoas, melhorando o seu contato com a natureza, consciência ambiental e qualidade de vida. E é para entender tudo isso que decidimos conversar com a arquiteta paisagista Caterina Poli (Catê Poli). Confira a entrevista no texto a seguir!

Arquitetura Paisagística
Imagem reprodução de Caterina Poli
1) Vamos começar esta conversa falando sobre os seus primeiros anos de carreira. Você se formou nos anos noventa pela FAU-USP, não é mesmo? Em uma entrevista para o site Paisagismo em Foco, você disse que começou seu trabalho já na faculdade, estagiando na área de paisagismo. Inclusive, você comentou que, na época, os desenhos eram feitos à mão. Conte como foi essa sua experiência inicial de carreira!

“O meu primeiro estágio foi porque meu pai estava querendo que eu estagiasse. Eu estava no terceiro ano de faculdade e uma amiga minha disse ‘Ah, minha mãe está precisando…’, e era estágio de paisagismo. Então, eu disse ‘Ah, vou fazer!’ e comecei na área. Até hoje, essa amiga é minha amiga. E eu não consegui ‘fugir’ do paisagismo; fui arrumando outros e outros estágios, sempre na área de paisagismo.

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Acho que a minha turma de faculdade pegou justamente aquela fase do trabalho de TCC à mão. Alguns primeiros empregos foram com arquivos eletrônicos, quando o pessoal começou a fazer em AutoCad aqui, em São Paulo.”

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2) Quem lida com Arquitetura sabe que o paisagismo não se restringe ao plantio de espécies, mas também com questões de luminotécnica; planejamento de mobiliários, equipamentos e outras estruturas; paginação de pisos; e muito mais. É como formar uma moldura para a Arquitetura, valorizando ainda mais os seus espaços através de áreas personalizadas e integradas às zonas internas e externas das casas, edifícios e além. Pode definir melhor para nós o que significa ser paisagista?

“Na verdade, qualquer um pode ser paisagista, pois não é uma profissão regulamentada. Está em votação em Brasília, mas sabe como é essa vida dos políticos, né? Na Pandemia, deu uma parada; já foi votado na Câmara, falta ser votado no Senado para regulamentar a profissão de paisagista.

Então, teoricamente, qualquer um, neste momento, que quiser falar que é paisagista, pode ser. Mas um arquiteto paisagista que faz Arquitetura Paisagística, que é Arquitetura de Exteriores, não é uma pessoa que só faz, vamos dizer, jardinagem e plantio. Envolve todos os elementos construídos externos – piscina, pergolado, orquidário e redario, espelho d’água, caminhos, pisos, iluminação, além da própria vegetação em si. Então, não é só ‘colocar umas plantinhas’ Essas são as vantagens que eu vejo em ser um arquiteto paisagista!

Realmente, é uma área complementar da Arquitetura e está cada vez mais sendo procurada antes, né? No momento da aprovação, no Anteprojeto Arquitetônico ou na aprovação de um Projeto de Prefeitura. Então, o Paisagismo está entrando cada vez mais e ele entra antes da obra estar pronta e de ‘colocar as plantinhas’. O Paisagismo entra antes!”

3) Recentemente, o Governo Federal assinou um projeto de lei que, finalmente, regulamentou a profissão de paisagista no Brasil. Como, na prática, você acha que isso tem impactado quem trabalha ou deseja trabalhar na área?

“Como dito antes, não regulamentou ainda, infelizmente!”

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4) De acordo com a nossa pesquisa, imaginamos que você foca o seu trabalho no mercado residencial, é verdade? Mas agora especialmente gostaríamos que você comentasse como é a relação da execução do Paisagismo com a Engenharia. Em certo artigo, você comentou que alguns pensam que o Paisagismo “tira a cara de obra e humaniza a casa, faz em poucos dias o que a construção levou muitos meses”. Pode falar mais sobre isso, sobre essa relação Paisagismo e Engenharia?

“Acho que se você faz Arquitetura Paisagística você tem que ‘conversar’ não só com a Arquitetura, com o arquiteto da casa ou quem faz interiores, mas também a parte de Engenharia. Sempre tem um elemento externo construtivo – uma caixa de passagem, uma cisterna – que acaba interferindo. E você tem que entregar os desenhos executivos para que a Engenharia possa construir a parte Externa.

Sempre tem uma ‘interferência’ para atrapalhar o Paisagismo (risos). Você não pode plantar porque tem uma coisa no meio, uma coisa de hidráulica, de esgoto pluvial… Então, a gente também precisa analisar esta parte. E sempre faço com a Engenharia – um facilitando o trabalho do outro -, para que resulte num trabalho bacana.

Faço 98% residencial mesmo!

E o engenheiro sempre fala ‘Pô…’; vira e mexe eles falam ‘Pô, Catê, a gente foca um ano e meio na obra e você faz… a execução da obra é em duas, três semanas, e o jardim fica pronto imediatamente’. Não imediatamente, né? Tem que esperar para crescer! Um jardim nunca fica pronto imediatamente, mas é muito mais rápido do que uma construção. Plantio é um processo muito rápido!”

5) O mercado imobiliário tem crescido demais nos últimos anos, apesar das diversas crises que enfrentamos com a economia. Pode nos dizer qual a contribuição do Paisagismo nisso tudo? Quanto de valor é agregado sobre uma construção civil com o trabalho de Paisagismo? Afinal, por que os engenheiros deveriam apostar no “movimento verde”, principalmente pensando no cenário que vivemos?

“O mercado mobiliário vem crescendo, mas o crescimento maior se deu agora na Pandemia, principalmente de residências. O pessoal saindo em busca de qualidade de vida.”

“Acho que, na parte de escritórios, piorou muito.

O Paisagismo é, na verdade, como é uma tendência, então tem gente procurando por imóveis com mais paisagismo, né? O Paisagismo pode valorizar um imóvel! Tem gente procurando casa por causa do jardim.

Mas, é isso! Ainda tem um longo processo. Não é uma coisa imediata!”

6) Ainda sobre o trabalho de paisagismo, poderíamos dizer que houve uma evolução enorme. A necessidade do desenho no computador em 2D permanece. Porém, as apresentações através de maquetes eletrônicas – e agora até das experiências em realidade virtual – facilita a compreensão das ideias, principalmente para os clientes. Conte como o Paisagismo aproveita hoje as novas tecnologias – como inteligência artificial, computação em nuvem, simulações em softwares e mais.

“É, eu acho que a gente tem que usar a tecnologia ao nosso favor, né? Para fazer o cliente compreender melhor o trabalho e evitar dúvidas ou incertezas, ou que a pessoa não entenda o que está acontecendo do que você está propondo. Então, eu acredito muito que o Paisagismo tem que acompanhar as tendências da Arquitetura e a Tecnologia. Não faz sentido ter uma apresentação 3D de uma casa e do Paisagismo ser em 2D.

Hoje em dia, acho primordial, tanto que eu tenho uns clientes que às vezes falam ‘Ah, para que 3D? Não precisa!’ e eu falo ‘Não abro mão do 3D’, porque todas as vezes… as últimas vezes que abrimos mão, o cliente não entendeu nada. Daí é pior, muito pior; economia porca! 3D é ferramenta de trabalho! Acho imprescindível; ADORO 3D!

A gente ainda não faz aquele super 3D no BIM. A gente faz no Sketchup, mas já dá para entender bem. E tem esta coisa de busca da tropicalização dos blocos de plantas, pois não tem ainda muitas plantas tropicais, porque a maioria dos softwares é de origem ‘gringa’. Então, tem algumas pessoas criando esses bloquinhos de plantas brasileiras, tropicais.”

7) Por certo, a arquitetura pode transformar o mundo de modos que nem imaginamos. Frequentemente, o Engenharia 360 noticia trabalhos de arquitetos e engenheiros que levam um pouco do seu conhecimento às camadas mais simples da população, inclusive ajudando na questão estética e ecológica das cidades. Dentro disso, como você acha que podemos democratizar a Arquitetura Paisagística?

“Eu acho que o paisagista pode estrar nas camadas mais simples, como para uma organização dos espaços urbanos, nas praças, nos parques, revitalização de áreas degradadas. Mas tudo isso depende da iniciativa pública, que é uma coisa mais difícil aqui, no Brasil, essa valorização… Porque as pessoas mal têm casa, saneamento básico, educação, não têm acesso à saúde – tem, mas nem todos têm. E se a gente pensar no Paisagismo, parece uma coisa de extremo luxo, mas pode entrar também nessa parte funcional, em hortas urbanas ou hortas comunitárias pensando nessa coisa de combater a fome mesmo. Daí não tanto como um desenho, mas como uma parte funcional mesmo, social.”

8) É claro que o Paisagismo está fazendo o dia a dia das pessoas neste momento de covid muito melhor. Afinal, por que ter plantas em casa ajudaria na melhora da saúde das famílias e de suas próprias residências – lembrando também da questão do conforto ambiental?

“Na verdade, se as plantas trazem bem estar ou não, assim, se elas melhoram a saúde ou não, não sabemos. Mas elas trazem sensação de bem estar. Isso se você curte plantas. Se você não curte, também não adianta (risos)! E tem a parte de conforto térmico quando você tem um jardim externo. Acho que, se você tiver uma urban jungle com bastante plantas, você tem um ambiente mais fresco. Mas teria que ter muitas plantas. Se você tiver duas plantas em casa, uma no vaso, não adianta nada.

Mas acho que é isso! As pessoas começaram a valorizar o contato com a natureza, que traz um bem estar que traz uma sensação de melhora de qualidade de vida. Acho que é mais por isso mesmo!”

9) A pandemia também obrigou muitos profissionais a adotarem um esquema de trabalho diferente. Enfim, como foi para o Paisagismo manter equipes de projetos afastados, em home office, por exemplo? Foi possível tocar os negócios apenas através das apresentações de maquetes eletrônicas? As tecnologias realmente conseguem hoje substituir o contato humano tão necessário sobretudo nas etapas iniciais de concepção de projeto?

“A gente se adaptou num dia. A gente pensou que ficaria longe umas semanas e estamos online mais de dois anos, e tem arquitetas do escritório que foram morar em outra cidade, contratei estagiária de outra cidade também. A gente conseguiu trabalhar muito bem, a gente se adaptou muito bem, porque nosso escritório é basicamente de projetos. Então, acabou não fazendo visitas à obra, mas o desenvolvimento de projetos é feito cada um na sua casa.

E a ideia é voltar no híbrido, com alguns dias no escritório, um ou dois por semana, e todo mundo trabalhar tranquilo de casa, até mesmo num horário que for mais conveniente, com alguma flexibilidade. Eu acredito muito nisso, na pessoa trabalhar feliz, não trabalhar…não precisa vir, perder tempo, presencialmente ou ficando preso no trânsito ou no transporte coletivo.

Com clientes às vezes mais idosos, com dificuldade com tecnologia, foi um pouco mais penoso. Mas com a maioria, vamos dizer que 95%, foi muito tranquila a aceitação.

Mais econômico para o meio ambiente, mais eficiente, é tudo melhor! Não mudou em nada a qualidade da entrega do nosso projeto.

Tecnologia é VIDA!

Para Arquitetura, para Interiores, que são projetos mais complexos, que ficam, às vezes, um ano… Acho que é mais imprescindível o presencial. O Paisagismo é um processo muito rápido, de uns dois meses, de duas ou três reuniões só. Então, não tem a necessidade mesmo de ter o contato físico. Ninguém precisa ver meu corpo; ver meu rosto já está ótimo (risos).”

10) Sabemos que, nessa crise, muitos profissionais encontraram na web uma forma de divulgar os seus trabalhos via redes sociais e conseguir manter contato com os seus clientes – e até adquirir novos. Será que essa seria a chave para manter o consumo do setor de Arquitetura e Engenharia mesmo depois da pandemia? Conte para nós como o novo Marketing ajuda o mercado de Paisagismo.

“Eu fiz pós em Marketing, na ESPM. Fiz Arquitetura na USP e depois eu fiz esta pós em Marketing na ESPM.

Acho que o Marketing faz sempre parte do business e sempre investi em alguma divulgação. E o Instagram deu muito certo pra gente; e, hoje, talvez uns 50% dos clientes venham do Instagram. Muito legal, pois a gente consegue atingir o Brasil inteiro. E acho que é isso ‘quem não é visto não é lembrado’! Acho difícil alguém não ter redes sociais hoje em dia… que seja para a vida profissional. Eu, na minha vida pessoal, não gosto de ficar aparecendo. Tenho Facebook só para os amigos. E não fico me postando muito no Instagram, acho meio brega; prefiro que apareça mais o meu trabalho – não é brega, acho meio esquisito aparecendo ali.

Não dá pra não ter perfil profissional pra divulgar seu trabalho mais. Tecnologia, de novo, trabalhando para nós!”


“Posso acrescentar uma coisa? Sobre sustentabilidade

Uma coisa que eu acho que o paisagista tem que se preocupar no trabalho não é só a beleza, a estética, a funcionalidade, a técnica, mas também um pouco com a sustentabilidade, porque a gente tem uma função. A gente pode ter também uma função de preservação ambiental, de plantar as árvores nativas. Acho que é uma tendência muito forte de Paisagismo Regenerativo.

Além do Paisagismo Funcional, as pessoas querem frutas, horta e verdura… Está aumentando também esta busca!

Acho que é isso!”


E para quem deseja saber mais sobre a qualidade do trabalho da arquiteta paisagista Caterina Poli, confira o testemunho de um dos seus parceiros e clientes, o Lufe Gomes, do famoso canal do YouTube ‘Life By Lufe’:

“Trabalhar com a Catê foi muito gostoso, porque ela compreendeu a nossa necessidade. Ou seja, a vontade que a gente tinha de ter uma casa nas alturas. A gente queria um jardim que nos desse um conforto que a gente sente através de árvores frutíferas, de colher as coisas no pé, de caminhar pelo jardim para poder colher as ervas espalhadas por todos os cantos. Ela teve a sensibilidade de saber exatamente as plantas que entrariam para dentro de casa visualmente quando a gente tivesse olhando de dentro para fora. Então, ela não fez apenas um jardim, ela compreendeu a gente em forma de plantas. E eu acho que isso é uma das coisas mais deliciosas de trabalhar com a Catê, sabe? É um prazer, realmente. E a gente é muito feliz com o trabalho dela!”

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