A produtividade na construção civil é frequentemente comparada à de setores industriais que operam com alto grau de padronização e repetibilidade. No entanto, essa comparação ignora uma característica fundamental da construção: seu caráter predominantemente artesanal. Inclusive, no contexto brasileiro, atividades como execução de formas em madeira, alvenaria e concretagem, seja com métodos tradicionais ou utilizando concreto usinado, ainda dependem intensamente de mão de obra especializada e de condições variáveis de campo.
Diferentemente da indústria, onde os processos são controlados e previsíveis, a construção civil opera sob elevada variabilidade, o que impacta diretamente seus níveis de produtividade. Nesse cenário, compreender a natureza dessa variabilidade e sua influência sobre a produtividade torna-se essencial para qualquer análise consistente do desempenho em obras.
Este artigo do Engenharia 360 analisa a produtividade na execução de concreto a partir da comparação entre o uso de concreto usinado com bomba e o concreto produzido em obra, demonstrando que a eficiência não está associada apenas à escolha do método construtivo, mas principalmente à forma como o processo é organizado. Acompanhe!
O desafio da tomada de decisão no canteiro
Na prática das obras, a decisão entre utilizar concreto usinado com bomba ou produzir concreto em obra ocorre com frequência na execução de elementos estruturais, como lajes, vigas e pilares. Em muitos casos, essa escolha é baseada predominantemente no custo direto ou na experiência prévia da equipe, sem uma análise estruturada das condições reais de execução. No entanto, essa abordagem desconsidera fatores fundamentais como o ritmo de produção, a logística de materiais, a disponibilidade de mão de obra e as interrupções ao longo do processo, o que pode comprometer significativamente o desempenho produtivo do serviço.
Ao analisar o ciclo de produção do concreto executado em obra, observa-se que o processo é composto por etapas interdependentes, como a confecção do concreto em betoneira, o transporte horizontal e o lançamento. Cada uma dessas etapas possui uma capacidade produtiva própria, e o desempenho global do sistema é limitado pelo seu elo mais restritivo.

Entendendo os indicadores de produtividade
A produtividade pode ser entendida como a relação entre a quantidade de serviço executado e os recursos necessários para sua realização. Sob a ótica da produção, pode ser representada por unidades como m³/h ou m²/dia. Já sob a ótica da mão de obra, é comum a utilização de indicadores como homem-hora por unidade produzida (hh/m³, hh/m²), que expressam o esforço necessário para a execução do serviço.
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Segundo Amarante (2023), a partir dos índices de produtividade é possível determinar os insumos necessários para a execução de um determinado serviço. Dessa forma, a produtividade deixa de ser apenas um indicador de desempenho e passa a ser uma ferramenta fundamental para o planejamento e dimensionamento dos recursos envolvidos na produção.
A importância da equipe e dos Índices SINAPI
Conforme observado nas composições de custos unitários do SINAPI-RJ (2026), para o serviço de formas, os índices indicam aproximadamente 1,088 h/m² para o carpinteiro e 0,477 h/m² para o ajudante. Isso revela uma proporção operacional típica de um ajudante para cada dois carpinteiros, garantindo equilíbrio na execução das atividades. É fundamental que esses coeficientes sejam adaptados para cada situação, considerando a organização do ambiente, tempo de deslocamento e experiência dos operários.

Capacidade teórica versus produtividade real
A confecção do concreto em betoneira de 400 litros é uma etapa essencial, mas ser o processo inicial não a torna o elemento determinante do desempenho global. O resultado final do sistema dependerá da capacidade das etapas subsequentes em absorver esse volume.
Uma betoneira de 400 litros apresenta capacidade real de aproximadamente 280 litros por ciclo, resultando em uma produção teórica entre 4,2 m³/h e 5,6 m³/h. No entanto, ao considerar a produtividade efetiva em campo, observa-se uma diferença significativa: a produtividade média para produção de concreto estrutural é da ordem de 0,4 m³/h. Essa discrepância evidencia que a produção real depende do sistema como um todo, incluindo tempos improdutivos, alimentação da betoneira e perdas inerentes, algo que o concreto usinado mitiga ao chegar pronto ao canteiro.
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Resultados da medição em campo
Para validar esses índices, foi realizado um acompanhamento completo do ciclo de produção em uma obra real, desde a dosagem em padiola até o lançamento nas formas. Os resultados confirmam que a realidade do canteiro impõe restrições severas ao ritmo teórico dos equipamentos.

Com base nos apontamentos de campo, foi obtida uma produtividade média de aproximadamente 0,28 m³/h, o que valida a coerência dos dados apresentados pela literatura técnica de PROENT.
A Teoria das Restrições e o “Gargalo”
O fluxo do sistema é limitado pela etapa mais lenta, conhecida como gargalo. Se a produção na betoneira é de 0,4 m³/h e o transporte possui capacidade de 1,0 m³/h, a produção global será de apenas 0,4 m³/h. Estratégias como a utilização de duas betoneiras só serão efetivas se as demais etapas forem capazes de acompanhar a nova capacidade. Esse raciocínio está alinhado com a Teoria das Restrições (TOC), que busca elevar a restrição do sistema para melhorar o fluxo contínuo.

Análise de cenários: Concreto In Loco ou Usinado?
Em termos de custo direto, observa-se uma diferença de aproximadamente R$ 85,40 por metro cúbico entre as duas alternativas. No entanto, para que o concreto produzido em obra atinja um nível de competitividade equivalente ao concreto usinado, seria necessário elevar sua capacidade produtiva para cerca de 4,24 m³/h. Esse patamar é de difícil viabilização operacional na prática.
Mesmo com múltiplas betoneiras, a necessidade proporcional de ampliação da equipe e da estrutura logística elevaria os custos indiretos e a complexidade, tendendo a anular os ganhos econômicos esperados.



Organização é a chave!
A análise demonstra que a produtividade não pode ser avaliada apenas com base no custo direto. A produção é limitada pela etapa mais lenta, reforçando a importância de analisar o processo como um todo. Os dados de campo mostram que a produtividade real é significativamente inferior à teórica dos equipamentos devido a fatores organizacionais e logísticos.
Em última análise, a melhoria da produtividade não está apenas no aumento de recursos ou na escolha do método, mas principalmente na organização do processo e no equilíbrio entre suas etapas.
E na sua obra, qual método tem apresentado os melhores resultados em termos de produtividade e custo? Compartilhe sua experiência conosco na aba de comentários!
Veja Também: Como Funciona uma Usina de Concreto?
Este artigoo foi produzido por Mario Sergio Storch Thimoteo, engenheiro civil com experiência em gestão de contratos, além de planejamento e controle de obras.
A revisão ficou a cargo de Alex Amarante, autor de livro sobre Linha de Balanço, e de Márcio Proent, responsável por obra dedicada ao Índice de Produtividade.
Fontes:
- PROENT, Márcio. Indice de Produtividade para Orçamento e Planejamento. 2024.
- AMARANTE, Alex. Linha de Balanço: Dominando e Aplicando a Programação da Construção Enxuta. 2023.
- CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SINAPI – Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil.
- CSM. Betoneira 400 litros – especificações técnicas. Disponível em: csmequipamentos.com.br.
- MATTOS, Aldo. Planejamento E Controle de Obras. 2ª edição. São Paulo: Oficina de Textos, 2019.
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