A paisagem de Singapura nunca mais foi a mesma depois da construção do complexo Marina Bay Sands. Ícone da arquitetura, a obra ostenta uma gigantesca plataforma de 340 metros de comprimento, em formato de navio de luxo, flutuando a 200 metros de altura, apoiada sobre três arranha-céus. A estrutura, projetada por Moshe Safdie, é colossal e desafia os limites da engenharia estrutural contemporânea. O Engenharia 360 compartilha mais detalhes no artigo a seguir.

Como três torres sustentam um “navio” no céu de Singapura?

A construção do Marina Bay Sands é realmente surpreendente. O desafio de engenharia já começou no tratamento de solo. Lembrando que essa região de Singapura é fruto de um processo de aterro marítimo. Ou seja, essa base artificial não possui a estabilidade e a resistência das formações rochosas naturais, capazes de suportar cargas expressivas. Para suportar torres de 55 pavimentos, os engenheiros precisaram prever o uso de estacas profundas — 5 mil delas, aliás —, atingindo 50 metros de profundidade e blindando as estruturas contra deslocamentos destrutivos.

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O efeito “baralho de cartas”

Mas olha que interessante, um observador à distância poderá perceber que o Marina Bay Sands é composto por torres levemente inclinadas em direção ao centro, com um átrio conectando os edifícios na base. Pois é! Em alguns pontos, a geometria chega a formar ângulos de 26 graus. E lá no topo, elas são conectadas por uma estrutura curva e alongada, batizada de SkyPark, abrigando jardins, restaurantes, mirantes e a famosa piscina de borda infinita.

Marina Bay Sands
Imagem de Airbusa388 em Wikipédia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Marina_Bay_Sands11.jpg

Essa configuração é bem elegante e, por certo, deve ter sido um pesadelo para os engenheiros calculistas. Por quê? Bem, é que torres inclinadas geram distribuições de carga assimétricas e não idênticas, esforços de torção e momentos estruturais que não aparecem em projetos verticais convencionais. Para absorver tudo isso, foram adotados elementos de concreto armado de alta resistência, com paredes de cisalhamento de até 71 cm de espessura na base, além de núcleos rígidos capazes de resistir às forças laterais impostas pelo vento e pelo peso da plataforma superior.

Vale ainda destacar os sistemas de escoramento e cabos de alta tensão (strut-and-tension-cable), instalados como reforço estrutural depois de 2006, na fase de construção do empreendimento. À medida que as treliças definitivas das torres eram posicionadas, parte dessas escoras temporárias foi removida, restando apenas os cabos de aço embutidos e camuflados atrás das paredes de concreto. Resumindo, funciona como um sistema de transferência de cargas invertido.

Passo a passo da montagem da “casca”

A montagem de todo o Marina Bay Sands, em especial da SkyPark, exigiu uma operação logística sem precedentes. A “casca” estrutural foi pré-fabricada em 14 grandes módulos de aço. O encaixe no terreno foi milimetricamente calculado, exigindo tolerâncias milimétricas, controladas de perto por modelos avançados de monitoramento via GPS. Basicamente, qualquer desvim inviabilizaria o acoplamento final. Sabe-se que, por conta de tentativas falhas, o desenho de algumas peças precisou ser modificado para reduzir a conicidade, melhorando a resposta do conjunto estrutural.

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Como o maior mirante em balanço do mundo foi projetado?

Nada chama mais atenção na arquitetura do Marina Bay Sands do que o balanço de sua plataforma sobre a torre norte — ele tem 67 metros e é considerado o maior balanço estrutural do mundo já construído em um edifício aberto ao público. Parece até milagre da engenharia! Para viabilizar essa construção, os engenheiros desenvolveram um sistema de treliças metálicas e vigas estruturais potentes, que ajudam a redistribuir as cargas de volta para as torres — mais ou menos como se vê em projetos de grandes pontes.

A plataforma do mirante é dividida em 14 grandes segmentos metálicos, que foram fabricados fora do canteiro de obras. In loco, os módulos foram içados, um de cada vez, por guindastes de altíssima capacidade. Cada operação levou cerca de 16 horas.

E aqui está uma curiosidade que poucos sabem: o SkyPark não foi fixado rigidamente às três torres. Na verdade, ele se apoia de forma fixa em apenas duas delas, enquanto a terceira torre se conecta à plataforma por meio de juntas deslizantes e dispositivos hidráulicos ajustáveis. Essa flexibilidade permite que, em dias de calor extremo ou sob ação de ventos fortes e vibrações sísmicas, a plataforma se mova e dilate como necessário e de forma independente, impedindo acúmulo de tensões internas. É como uma arquitetura viva!

A piscina que pesa mais do que parece

Agora vamos falar da lindíssima piscina infinita do Marina Bay Sands. Ela tem 150 metros de comprimento e é considerada outro desafio da engenharia desse empreendimento. Suas centenas de toneladas de água em movimento geram cargas dinâmicas adicionais sobre a plataforma “navio”. Para os banhistas literalmente não despencarem lá do alto, os calculistas sugeriram dividir a estrutura em três partes, separadas por juntas de dilatação, enquanto sistemas de amortecimento, bombas e reservatórios ocultos redistribuem continuamente o peso da água, evitando concentrações excessivas de cargas em pontos específicos.

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Marina Bay Sands
Imagem de dronepicr em Wikipédia – https://en.wikipedia.org/wiki/File:Rooftop_Pool_Marina_bay_Singapore_(39289149252).jpg
Marina Bay Sands
Imagem reprodução de Wikipédia – https://en.wikipedia.org/wiki/File:Marina_Bay_Sands_(215599375).jpeg

Por que essa obras importa para a história da engenharia?

O Marina Bay Sands é obra de arte, é arquitetura, é engenharia, é ícone turístico, é “navio flutuante”, é parte arranha-céu, é parte ponte habitável suspensa no ar. O que mais? 

Inaugurado em 2010, depois de mais de 5,7 bilhões de dólares americanos em investimentos, o complexo demonstrou que edifícios altos não precisam seguir regras verticais rígidas. Mostrou que é possível, sim, transferir cargas no topo de estruturas independentes, usar conexões flexíveis entre torres e transformar plataformas aéreas em espaços urbanos densos e funcionais.

Hoje, após anos de sua conclusão oficial, o Marina Bay Sands continua sendo monitorado em tempo real — incluindo temperatura, oscilação do vento e esforço estrutural. E, mais do que isso, permanece desafiando a imaginação e a física.

Marina Bay Sands
Imagem de dronepicr em Wikipédia – https://pt.wikipedia.org/wiki/
Ficheiro:Aerial_of_the_roof_top_pool_Marina_Bay_Sands_Hotel_(36592484922)_(2).jpg

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Fontes: Click Petróleo e Gás, Revista Fórum, EngSette.

Imagem de capa: https://en.wikipedia.org/wiki/File:View_of_MBS_from_the_gardens_(8026531707).jpg

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Engenharia 360

Simone Tagliani

Graduada nos cursos de Arquitetura & Urbanismo e Letras Português; técnica em Publicidade; pós-graduada em Artes Visuais, Jornalismo Digital, Marketing Digital, Gestão de Projetos, Transformação Digital e Negócios; e proprietária da empresa Visual Ideias.