Uma câmera dentro da boca, 16 milhões de linhas de código e 661 engenheiros trabalhando durante seis anos. Essa é a escala do projeto que levou a Dyson — conhecida por aspiradores, ventiladores e secadores de cabelo — a tentar reinventar um objeto que praticamente não mudou de função em séculos: a escova de dentes.

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Escovas Dyson CameraJet nas cores azul e rosa
Dyson CameraJet chega em duas opções de cor e integra escovação, câmera e jato de precisão. Crédito: Dyson/Divulgação via PR Newswire.

Apresentada por James Dyson em Paris, em 1º de setembro de 2026, a Dyson CameraJet combina escovação elétrica, câmera intraoral, inteligência artificial e um sistema de jato líquido que mira automaticamente os espaços entre os dentes. A proposta é transformar escovação, uso do fio dental e enxágue em uma única rotina de cerca de três minutos.

O número que melhor traduz a ambição do projeto é este: 661 engenheiros participaram do desenvolvimento, que levou seis anos e gerou 38 patentes, de acordo com a WWD. O aparelho chega aos Estados Unidos por US$ 499 e ao Reino Unido por cerca de £420. Ainda não há preço nem data de lançamento confirmados para o Brasil.

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Dyson CameraJet com jato de precisão em funcionamento
A Dyson CameraJet combina câmera intraoral, escovação sônica e jato direcionado. Crédito: Dyson/Divulgação via PR Newswire.

Uma câmera do tamanho da ponta de um lápis

Na cabeça da escova há uma câmera macro intraoral de 100 mil pixels, acompanhada de iluminação e de um pequeno bocal. O conjunto captura e analisa 28 imagens por segundo enquanto o usuário escova os dentes.

Essas imagens alimentam o sistema chamado Gap Optical Targeting, treinado com aproximadamente 470 mil imagens odontológicas. A inteligência artificial distingue o dente do espaço interdental e tenta prever onde estará a próxima abertura, mesmo com a escova em movimento.

Quando identifica um vão, o sistema aciona, em até 100 milissegundos, um jato cônico de enxaguante bucal. É quase instantâneo — mais rápido que uma piscada humana.

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A imagem também pode ser transmitida ao vivo para o aplicativo MyDyson. O usuário vê a própria escovação, identifica áreas negligenciadas e recebe orientações para melhorar a técnica. Segundo a empresa, a transmissão é opcional e nenhuma foto ou gravação é armazenada no aplicativo, no telefone ou nos servidores da Dyson.

Detalhe da cabeça da Dyson CameraJet e do jato cônico
O jato cônico de microgotículas foi projetado para alcançar os espaços entre os dentes. Crédito: Dyson/Divulgação via PR Newswire.

O desafio não era apenas enxergar, mas acertar o alvo

Colocar uma câmera em uma escova não foi o único problema de engenharia. O dispositivo precisa produzir uma imagem útil dentro de um ambiente úmido, com espuma, pouca luz e vibração intensa. A cabeça trabalha com aproximadamente 58 mil movimentos por minuto, segundo a WWD — condição que transformaria a filmagem de uma câmera comum em um borrão.

O jato também exigiu uma solução própria. Irrigadores bucais tradicionais usam um fluxo estreito, semelhante a uma agulha. A Dyson optou por um cone de microgotículas, projetado para cobrir uma área maior entre os dentes e reduzir a sensação agressiva sobre a gengiva.

Para manter a pressão constante em qualquer posição, os engenheiros criaram um reservatório “anti-gravidade” de 12,5 mililitros. Uma bolsa interna de silicone se expande à medida que o líquido é consumido, eliminando bolsas de ar e permitindo que o jato funcione com a escova na vertical, na horizontal ou inclinada.

A companhia chegou a formular pasta de dentes sem o agente espumante SLS e enxaguante de baixa espuma. Não é mero acessório: excesso de espuma poderia bloquear a visão da câmera e comprometer a leitura da IA.

Pessoa utilizando a escova Dyson CameraJet
A CameraJet reúne escovação e irrigação bucal em uma única rotina. Crédito: Dyson/Divulgação via PR Newswire.

Da serraria ao banheiro: a fórmula Dyson

A CameraJet segue um padrão que acompanha James Dyson desde o fim dos anos 1970. Incomodado com a perda de sucção dos aspiradores convencionais, o inventor britânico adaptou o princípio de separação ciclônica usado em ambientes industriais. Foram 5.127 protótipos até chegar ao aspirador sem saco que ajudaria a transformar seu sobrenome em uma marca global.

Depois vieram outras tentativas de redesenhar categorias consideradas maduras:

  • Airblade: secador de mãos que usa lâminas de ar em alta velocidade;
  • Air Multiplier: ventilador sem hélices expostas, baseado em controle do fluxo de ar;
  • Supersonic: secador de cabelo com motor compacto e controle inteligente de temperatura;
  • Airwrap: modelador que explora o efeito Coandă para atrair e enrolar os fios com fluxo de ar;
  • Purificadores e fones Zone: produtos que misturam sensores, acústica, filtragem e dinâmica dos fluidos.

O elo entre eles não é o design futurista, mas uma estratégia industrial: encontrar uma frustração cotidiana, reconstruir o produto ao redor de fenômenos físicos e cercá-lo de patentes, software e componentes proprietários.

Na CameraJet, essa lógica chegou ao extremo. A empresa não criou apenas uma escova. Criou câmera, algoritmo, reservatório, bomba, jato, aplicativo, pasta e enxaguante para funcionarem como um único sistema.

Aplicativo MyDyson exibindo imagens captadas pela CameraJet
A câmera transmite imagens ao vivo para o aplicativo MyDyson; a empresa afirma que o conteúdo não é armazenado. Crédito: Dyson/Divulgação via PR Newswire.

Engenharia impressionante — e uma pergunta de US$ 499

O desenvolvimento impressiona, mas o preço coloca o produto sob uma cobrança inevitável: a CameraJet resolve um problema clínico melhor do que uma boa escova elétrica combinada ao fio dental ou a um irrigador muito mais barato?

Por enquanto, a resposta é incompleta. A Dyson afirma que o jato cônico remove melhor a placa do que os jatos estreitos convencionais em testes de laboratório. Para avaliar o desempenho, a equipe desenvolveu uma “placa substituta” em colaboração financiada com a Faculdade de Odontologia da Universidade Nacional de Singapura.

Isso demonstra esforço técnico, mas não substitui estudos clínicos independentes e de longo prazo. Ainda será necessário verificar se a tecnologia melhora de forma consistente a saúde bucal — e se os usuários manterão o hábito depois que o fascínio pela câmera passar.

O ponto mais relevante talvez esteja além da escova. A CameraJet mostra como a engenharia contemporânea está fundindo disciplinas antes separadas. Mecânica de precisão, fluidodinâmica, ciência dos materiais, visão computacional, inteligência artificial, conectividade e experiência do usuário agora cabem em um único produto de uso diário.

Foram necessários 661 engenheiros para chegar até aqui. A escova pode ou não se tornar um sucesso comercial, mas já funciona como uma demonstração contundente de como até o objeto mais banal pode virar uma nova fronteira tecnológica quando alguém decide questionar cada detalhe do projeto.

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