A serragem é quase sempre tratada no mercado como um subproduto da indústria madeireira e deve ser descartada em aterros ou destinada à queima para geração de energia. Mas é possível que a engenharia contemporânea esteja começando a desafiar essa lógica, propondo usos desse material na construção civil.
Por exemplo, pesquisadores suíços estão desenvolvendo um painel feito a partir de serragem combinada com aglutinante mineral. E os resultados dos testes são surpreendentes. Confira mais detalhes no artigo a seguir, do Engenharia 360!

A engenharia por trás do novo material
Atualmente, a indústria de processamento de madeira gera toneladas de serragem. Até então, esse material era destinado a aterros sanitários ou à produção de biomassa. Mas os cientistas vêm alertando que, em ambos os casos, o carbono armazenado pelas árvores é liberado prematuramente na atmosfera. Agora, pesquisadores da ETH Zurich, na Suíça, descobriram um compósito que pode romper com esse ciclo e ser usado em substituição a divisórias e sistemas de vedação tradicionais.
Mistura de serragem com estruvita
Parece até um absurdo propor a troca de peças cimentícias por peças feitas de partículas soltas de madeira e ainda garantir mecânica superior e performance contra o fogo. Mas é isso: os cientistas encontraram uma “alternativa verde” com potencial de reaproveitamento — uma reengenharia completa de como entendemos o ciclo de vida dos materiais na Engenharia Civil. O “ingrediente secreto”? Enzimas de melancia.

Os engenheiros sanitaristas já conhecem bem a estruvita, substância mineral — frágil e quebradiça — que costuma entupir tubulações em estações de tratamento de águas residuais. Mas, na Engenharia de Materiais e Civil, suas propriedades naturais e resistência térmica ainda não tinham sido investigadas. Parecia impossível fazer a junção dela com a serragem, por exemplo, sem um agente de coesão eficiente. É aí que entram as sementes de melancia como catalisadores biológicos, controlando a formação e a ligação de cristais.
O resultado dessa mistura é uma matriz mineral-orgânica estável, onde a estruvita “abraça” as fibras da serragem, criando um painel de alta coesão.
A solução oferecida pela biotecnologia garante coesão, estabilidade e bom desempenho aos painéis finais fabricados.
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Os aspectos mais relevantes do novo material
Ensaios laboratoriais realizados por equipes da ETH Zurich e da Universidade Politécnica de Turim, utilizando um calorímetro de cone, demonstraram que os novos painéis feitos de serragem, estruvita e enzimas de melancia levam três vezes mais tempo para entrar em combustão quando comparados à madeira convencional não tratada.
As peças, quando expostas ao calor, formam rapidamente uma camada protetora feita de carbono e minerais. Essa barreira funciona, então, como um escudo térmico, retardando a propagação das chamas e reduzindo a taxa de combustão.
Na prática, isso significa um material com capacidade de autoproteção — uma característica altamente desejável em sistemas construtivos internos, especialmente em edificações que exigem maior segurança contra incêndios.
Para completar, o material também apresentou nos testes uma resistência à compressão perpendicular às fibras superior à da madeira maciça original, o que ampliaria significativamente suas possibilidades de aplicação.
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Desmontagem e reaproveitamento
Talvez o ponto mais positivo dessa nova tecnologia para a construção civil seja a economia circular.
Diferente dos painéis aglomerados com cimento ou resinas sintéticas, que geralmente vão parar nos lixões, esse painel pode ser, depois de desmontado, moído e aquecido a cerca de 100 °C para a recuperação da amônia e da newberyita. Esses componentes podem ser reinseridos no processo produtivo para criar novos materiais, fechando o ciclo da economia circular.
Outra opção para os resíduos desse painel é a trituração para recuperação de seu fósforo para uso como fertilizante de liberação lenta na agricultura, auxiliando no crescimento de plantas de forma controlada.
Desafios futuros do setor com foco no meio ambiente e critérios ESG
Vale lembrar da importância de se diminuir o impacto da engenharia sobre a natureza. Hoje, a construção civil é uma das indústrias que mais geram resíduos no mundo. Especialmente a indústria madeireira produz muita serragem que é subutilizada. Precisamos encontrar mais alternativas para evitar emissões desnecessárias de carbono, diminuir a demanda por matérias-primas virgens e criar cadeias produtivas mais eficientes.
Claro que, apesar do otimismo, o caminho dessa inovação até chegar ao canteiro de obras ainda é longo. O preço do aglutinante mineral e a escala de produção industrial ainda são desafios. Ainda é preciso entender como otimizar o processo de extração da enzima da melancia e a logística de obtenção da estruvita em escala global. Mas, certamente, é uma jornada sem volta rumo à biotecnologia e à regeneração. Aliás, essa pode ser a resposta que buscávamos para a crise habitacional e climática.
A pergunta que resta é: você, engenheiro, está pronto para especificar em seus projetos um material que se recicla sozinho e protege vidas com a inteligência da natureza?
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Fontes: Blog Canal da Engenharia, Click Petróleo e Gás.
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