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Saiba como o Design Thinking é essencial para a política

por Gilberto Strafacci Neto | 27/03/2019
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Certa vez ouvi de um grande amigo a seguinte frase: “ Política é conchavo e fisiologismo”. Essa afirmação bateu forte como um soco no estômago. Afinal, surgiu quando mencionei meu interesse em me envolver na política. Talvez, em função disso e de outros diversos fatores, escolhi me tornar um cidadão politizado e não um político. Acreditei (e talvez acredite ainda) que a política tinha grandes barreiras de entrada: a capacidade de fazer politicagem junto do clientelismo e senso duvidoso de moralidade.

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Imagem: /betanews.com

Muitas das afirmações que aqui serão feitas são generalizações e percepções minhas e de algumas pessoas próximas que são clientes do processo político. Em absoluto estou tratando do governo A ou B ou da ideologia política C ou D. Obviamente, e sem entrar no mérito, toda regra possui exceção e existem diversas facetas e pontos de vista como em todo cenário complexo. Parto também do princípio que não existe outro caminho senão pela política e pelo processo democrático. Como dizem: “A democracia é o pior sistema político com exceção de todos os demais”. É o que temos para hoje.

Muitos de nós acreditamos que políticos vivem em uma bolha, onde eles se fecham em uma caverna por um período de tempo apenas para emergir gloriosamente nas vésperas das eleições tratando de temas complexos e até mesmo caóticos com uma simplicidade que vai além da didática. Essa superficialidade é antagônica à transparência e responsabilidade necessárias ao desafio. O protagonismo dos políticos é pontual e ocorre como uma moeda de troca. Do povo, em troca do voto. De outros políticos e instituições, em troca de verba ou apoio. Com isso, trago os primeiros pontos de atenção do paradigma atual que podem ser repensados a partir do Design Thinking: a falta de constância de propósito, a falta de transparência, a carência de comunicação efetiva e uma atuação pautada no interesse próprio (ou da manutenção do poder).

Design Thinking, especialmente no setor público, trata da construção das instituições, políticas e leis de tal forma que possibilitem a prestação de serviços colocando o cidadão no centro de qualquer discussão. Mais do que isso, a forma de pensar do designer traz como inspiração a criação de valor com base na empatia, no pensamento criativo e na entrega de algo desejável testado exaustivamente e refinado num processo iterativo. Esse pensamento pode ser sistematizado nas etapas: Empatia, Definição, Ideação, Protótipo e Teste.

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Imagem: grupokronberg.com.br

Empatia possibilita a avaliação e pesquisa das partes interessadas, o levantamento de informações históricas sobre os problemas e benchmarkings sobre possíveis soluções com o entendimento profundo da necessidade do usuário-foco. Nisso, já vemos que a política peca logo de início ao não deixar claro para o cidadão quais dados definem o problema em termos da sua complexidade e extensão. Por exemplo, qual a real inflação na Argentina? Existe déficit na previdência do Brasil? Qual o desemprego atual na Turquia? Qual a taxa de criminalidade na Síria? Qual o déficit de moradias em Manaus?

Por mais que existam divergências entre as possíveis soluções, as perguntas acima possuem uma única resposta certa que é apartidária e baseada em fatos e dados. O problema está em partir da orientação política para olhar o problema do ponto de vista da solução que é mais conveniente para alguns poucos interesses enviesados. É anticientífico buscar os dados para justificar a solução.

Adicionalmente, ainda sob a ótica da Empatia, não existe clareza da fonte das informações utilizadas na definição das prioridades e tão pouco uma avaliação se outras propostas de soluções tiveram sucesso e insucesso regresso – discutem-se governantes passados e não resultados e boas práticas passadas. Também não há espaço e canal de comunicação efetivo e democrático que promova um entendimento das reais necessidades dos cidadãos. Não há um interesse que a sociedade civil se organize com um todo de forma a estruturar suas demandas de forma mais assertiva. O que vemos é o espaço de fala com representatividade enviesada de grupos que são prioritariamente políticos com inclinação favorável ao governante que está no poder.

E por último, e talvez o ponto mais importante da Empatia é falta de interesse na busca da isonomia. Afinal, conforme o artigo 5° da Constituição, todos deveriam ser iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Falta aos governantes a prática de calçar o sapato na forma de garantir o fim dos privilégios e vantagens institucionais.

A fase de Definição diz respeito a construção de prioridades. Existem requisitos que devem ser entregues obrigatoriamente para todos. Existem sim algumas coisas que são mais importantes que outras, tais como saúde, segurança e educação. Somente posteriormente avaliamos ou focamos na entrega daquilo que é desejável e que cabe somente se os requisitos obrigatórios foram entregues.. Nesse caso, não faltam péssimos exemplos de recursos mal aplicados ou de benefícios para determinados segmentos em detrimento daquilo que é básico para a população: obras faraônicas, gastos com mordomias, estruturas inchadas ou cabides de empregos.

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Imagem: blog.learningtree.com/

A fase de Ideação diz respeito a criação de soluções criativas e inovadoras com foco na colaboração e discussão envolvendo especialistas e usuários. Muitas soluções propostas por políticos são pensadas do ponto de vista de interesses de pequenos grupos ou com objetivo de gerar uma percepção de competência para a sociedade nas vésperas das eleições. O serviço público encontra muitas dificuldades em se relacionar com a sociedade e com o mercado para incorporação de boas práticas de gestão ou novas tecnologias. Além disso, as opções não passam pela avaliação da sociedade civil sem um filtro do interesse do governo e, quando ocorrem, são tendenciosas como, por exemplo, plebiscitos que ocorrem somente quando o político já sabe que a tendência de resultado o favorece.

Como as soluções são pensadas do ponto de vista do governo e não do ponto de vista do cidadão, muitos processos priorizam o controle, o tecnicismo e o requisito documental em contrapartida da transparência e facilidade. Não nos faltam também exemplos de leis que são impraticáveis e pouco inteligentes. Afinal, a melhor forma de reduzir a criminalidade e os assaltos com motos é proibindo a presença de garupas nesse meio de transporte, não é mesmo? ( ver Deputados de SP aprovam lei que proíbe garupa em motos)

As fases de Prototipação e Teste partem do princípio que não existe solução definitiva para problemas complexos. O Design Thinking aceita a falha e entende que existe uma larga distância entre o ideal e o ótimo. Dessa forma, transparência em se assumir falhas, velocidade na análise crítica e capacidade de reação são requisitos essenciais e pouco utilizados por governantes. Faltam dados e métricas de desempenho que possibilitem uma avaliação objetiva e ágil para adequação e mudança de práticas. Existe pouca comunicação e pouca troca de boas práticas entre governos municipais, estaduais e a esfera federal, ainda mais se forem de partidos diferentes.

Dessa forma, podemos perceber um mar de oportunidades, na política, que poderiam ser melhor aproveitadas através do Design Thinking. Cabe à sociedade conhecer, além dos seus direitos e deveres, metodologias que poderiam ser aplicadas e que já são realidade em alguns setores do governo. Para nossa alegria, não partimos do zero e já possuímos iniciativas e casos de sucesso que precisam ser institucionalizados, ampliados, divulgados e melhor supridos, como por exemplo a rede InovaGov que possui uma série de agências, institutos, ministérios e secretarias que buscam a inovação. De acordo com o seu manifesto, o objetivo é revolucionar a forma como o setor público conduz seus projetos e oferece serviços buscando estimular a geração de ideias e soluções criativas, promovendo enfoques mais humanos e centrados na experiência do usuário. Assim, integrar e articular esforços de diferentes setores, que resultem em melhoria de processos e serviços e promovam de forma sistêmica a cultura da inovação no setor público. Se conseguirmos isso, a política deixa de ser conchavo e fisiologismo e passa a ser um forma de criar empatia na sociedade com a criação e percepção de valor pelos cidadãos. Torcemos por isso.

Gilberto Strafacci Neto
Engenheiro Mecânico pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Especialista em Análise de Desempenho de Empresas pela FGV, Master Black Belt e Diretor de Operações do Setec Consulting Grouphttp://www.setecnet.com.br/, Certified Six Sigma Master Black Belt pela American Society for Quality (ASQ) e Certified Scrum Master pela Scrum Alliance e Facilitador Certificado LEGO® SERIOUS PLAY® (Ver PERFIL).

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