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Arquitetura Hostil: o que é e o que ela tem provocado de ruim na sociedade brasileira

por Simone Tagliani | 16/03/2021

Ela é a forma mais triste e vergonhosa de arquitetura - que contradiz a própria definição de arquitetura

Já esteve em um ambiente totalmente planejado por arquitetos e ainda assim se sentiu bastante desconfortável? Bem, isso pode ser possível! Existe um segmento da arquitetura que contradiz totalmente o próprio significado da boa arquitetura – aliás, a única que deveria existir -, que é o da arquitetura hostil. Já ouviu falar numa coisa destas?

Espaços hostis são aqueles que, de alguma forma, estão sempre tentando excluir as pessoas de espaços públicos que teriam direito de usufruir. Mais cruel ainda, tentam impedir que aqueles que estão em situação de rua utilizem tais locais para se sentar ou deitar. Recentemente, um caso polêmico foi noticiado nos principais jornais brasileiros: em São Paulo, um projeto foi alvo de críticas. Saiba mais no texto a seguir!

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O triste cenário das cidades brasileiras

Responda esta pergunta: para quem as cidades são pensadas? Infelizmente em países com tamanha desigualdade, como o Brasil, as cidades parecem ser pensadas apenas para aqueles que possuem maior poder aquisitivo. Falando a verdade, para quem é pobre, o design dos espaços públicos é desagradável! O fato é que os gestores de nosso país parecem ignorar as necessidades dos cidadãos e, sobretudo, utilizam de todos os artifícios para afastar as pessoas em situação de rua da vista!

arquitetura hostil em bancos de ônibus (ideal)
Bancos de ônibus (ideal) – imagem de Blog Porto Imagem

Com a recente pandemia, este cenário se agravou ainda mais. Mas este é um problema que já vem se arrastando por muitas décadas. Já em 1994, o jornal Folha de São Paulo fez uma reportagem com o título “arquitetura antimendigo“, falando sobre a construção de prédios sem marquises e com cercas e grades para afugentar moradores de rua.

Anos depois,  houve a proposta do governo do mesmo estado de instalar grades e canteiros sob o viaduto dos Bandeirantes para dificultar o acesso dos sem-teto. Em 2005, a instalação de rampas de concreto na Avenida Paulista inviabilizou a permanência de transeuntes. Em 2007, divisórias de ferro nos bancos das praças. No ano de 2014, canteiros de paralelepípedos ao redor de pilastras na Linha 1-azul do metrô. E agora em 2021, pedras sob o Viaduto Dom Feliciano Mendes de Almeira – que teria sido retiradas a marretadas por um padre indignado com a situação.

Agora pense por qual motivo todas essas ações foram tomadas? Será que em algum momento o poder público pensou em soluções para melhorar a qualidade dos cidadãos e tirar essas pessoas das ruas? Ou seria apenas uma estratégia de “jogar a sujeira para debaixo do tapete”?

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arquitetura desmontável morador de rua dormindo
moradores de rua – imagem de pixabay

Como funciona a Arquitetura Hostil?

“Aos pobres não se perdoa sequer sua pobreza.”

– Papa Francisco.

Recentemente, uma notícia viralizou nas redes sociais. Ela falava sobre a história de um padre que resolveu retirar, a marretadas, pedras colocadas embaixo de um viaduto de São Paulo para afastar moradores de rua. A repercussão desta história foi grande e trouxe à tona outra vez a questão da arquitetura hostil.

caso São Paulo x Padre
caso São Paulo x Padre – imagem de Globo

Certamente você já deve ter visto coisas assim e não percebeu do que se tratava, de qual era o objetivo da sua instalação. Vamos colocar a seguir uma relação de elementos utilizados para criar tal modelo de arquitetura e, então, você entenderá!

São elementos ou estratégias utilizadas na arquitetura hostil:

  • Blocos de concreto e de pedra entre outros elementos – principalmente pontiagudos;
  • Grades e muros ou guarda-corpos;
  • Cercas elétricas e arames farpados;
  • Retirada de bancos ou colocação de ferros e apoio de braços estrategicamente posicionados para divisão dos assentos;
  • Bancos públicos inclinados, ondulados, ou estreitos demais;
  • Retirada dos ferros ou bancos sob paradas de ônibus;
  • Instalação de rampas e plataformas;
  • Dispositivos anti skate;
  • Portas giratórias;
  • Gotejamento de água; e
  • Certos ornamentos sutis.
exemplo de Arquitetura Hostil
exemplo de Arquitetura Hostil – imagem de Hometeka
exemplo de Arquitetura Hostil
exemplo de Arquitetura Hostil – imagem 3 de Hometeka

Por que a Arquitetura Hostil é feita e o que ela provoca?

As ações tomadas por governantes brasileiros podem ser facilmente julgadas, pois sabemos das reais intenções por trás disso. Mas nem sempre podemos julgar as ações desesperadas tomadas pelos próprios cidadãos. Sabe por quê? Como julgar quem vive com medo da violência? Dizer às pessoas que não devem cercar seus terrenos? E sustentar a ideia de que elas precisam conviver com o problema dos moradores de rua sem se indignar com a situação? Infelizmente é isso que leva a criação da maior parte dos projetos de arquitetura hostil.

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pinos em escadaria
exemplo de Arquitetura Hostil – imagem de Wikipedia
pinos em calçada
exemplo de Arquitetura Hostil – imagem 2 de Hometeka

Agora, é claro que muitos utilizam a arquitetura hostil para externar o seu preconceito. Em reportagem do site UOL, arquiteta Luiza Coelho disse o seguinte:

“Historicamente esse tipo de estratégia é usada para tirar do espaço urbano quem está fora do ideal do ‘cidadão de bem’, ou seja, afastar as pessoas não-brancas, periféricas, em situação de rua, imigrantes, travestis, trans e mulheres desacompanhadas, por exemplo.”,

“Eu definiria arquitetura hostil como a que se impõe acima do desejo da população, dos usuários daquele lugar. É uma arquitetura que afasta, que não serve como espaço de encontro.”,

“(Gestões de um desenho urbano sugerem) que só somos cidadãos se estamos trabalhando ou consumindo bens diretamente”.

Luiza Coelho, arquiteta

exemplo de Arquitetura Hostil
exemplo de Arquitetura Hostil – imagem de Racismo Ambiental e Voz Populi

Você concorda com essas ideias? Acredita que pessoas que moram nas ruas não têm os mesmos direitos que outros cidadãos? E que esse tipo de atitude da arquitetura hostil resolve todos os problemas sociais?

Vamos apostar que sua resposta é não! Que concordaria que isto aumentaria a desigualdade, a intolerância e a discriminação, sendo uma ação desumana. Além do mais, a arquitetura hostil teria um efeito negativo na paisagem urbana, deixando o desenho das cidades mais rígido, como espaços públicos restritos e difíceis de usar. Ou seja, perde-se totalmente o sentido de ser chamada de arquitetura!

Veja Também: Banho Solidário atende sem-tetos na Bahia


Fontes: Revista Casa e Jardim, Nexo Jornal, Casa Vogue, G1, UOL, ClicRBS.

Andando por sua cidade, quantos itens da arquitetura hostil você consegue identificar? Comente!

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Simone Tagliani

Graduada em Arquitetura & Urbanismo e Letras; especialista em Artes Visuais; estudante de Jornalismo Digital e proprietária da empresa Visual Ideias - Redação, Edição e Produção de Conteúdos.