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Engenharia Popular: uma reflexão sobre o ensino da engenharia e seu papel na sociedade

por Engenheiros Sem Fronteiras Brasil | 03/08/2020
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A Engenharia Popular busca a construção de um mundo menos desigual e mais justo para a humanidade como um todo

Por: Sandra Rufino

Nas orientações previstas nas diretrizes curriculares nacionais dos cursos de engenharia (CNE, 2002; 2019) vemos como objetivo de perfil da(o) egressa(o) a formação humanista, crítica, reflexiva, voltada para a sustentabilidade. Apesar dessa orientação, são raras(o)s a(o)s profissionais que tenham uma formação holística que englobe os impactos de suas ações sobre questões sociais e ambientais no exercício de suas práticas de engenharia.

Temos desde a década de 60 a construção da compreensão da ciência e da tecnologia e suas inter-relações com a sociedade que questiona e critica a neutralidade da ciência e da tecnologia, e ainda, de ideias lineares de progresso (INVERNIZZI; FRAGA, 2007). Entretanto, vários estudos sobre a formação da(o)s engenheira(o)s de: aquicultura, alimentos, ambiental, civil, produção, materiais, sanitaristas (COLOMBO, 2004; FRAGA, 2007, DWEK, 2008; FRANKEL, 2009; DWEK, 2012; BORDIN; BAZZO, 2019) apontam para uma formação com predominância de uma visão tecnicista com separação entre teoria-prática, e com ações e exemplos focados num segmento: indústrias e setor privado.

Podemos inferir que os currículos de engenharia, pouco (ou nada) apresentam de questões socioambientais nos problemas e soluções tecnológicas e que nesse afastamento acabou por também contribuir para desigualdades sociais e desiquilíbrio ambiental. Um sistema de ensino puramente tecnicista provoca ganância e adormece a consciência coletiva (BAZZO; BAZZO, 2010). Neste contexto de resgate da(o) cidadã(o) engenheira(o) surge um movimento internacional de múltiplas iniciativas de engenharia engajada (KLEBA, 2017) que refletem sobre o papel das engenharias e da produção sociotécnica, do qual a Engenharia Popular (EP) é uma das vertentes.

Terra, concreto e canos PVC sendo manipulados por pessoas, para a construção de uma estrutura de saneamento ecológico representando engenharia popular
Construção de tecnologia de saneamento ecológico no I Encontrão Sem Fronteiras (Rio de Janeiro-2019)

A Engenharia Popular busca a construção de um mundo menos desigual e mais justo para a humanidade como um todo. Suas práticas são norteadas pelos princípios de:

  • a) educação popular;
  • b) autogestão;
  • c) justiça social e ambiental;
  • d) feminismo, antirracismo e contra LGBTfobia;
  • e) cuidado com a vida;
  • f) valorização da cultura em sua diversidade;
  • g) reconhecimento e diálogo entre os diversos saberes (populares, tradicionais e acadêmicos).

O fazer de uma engenharia que compreenda o debate sobre desigualdade, pobreza, projetos alternativos de desenvolvimento e de sociedade. A Engenharia Popular (re)pensa nos modos de produção e reprodução da vida.

A Rede de Engenharia Popular Oswaldo Sevá (REPOS) é a principal referência dessas iniciativas. Tem propiciado a organização de espaços de formação e debate, para aluna(o)s e profissionais de engenharia e áreas tecnológicas, como os encontros nacional e regionais de engenharia e desenvolvimento social (ENEDS e EREDS). Os debates e ações da rede perpassam por: formação da(o) engenheira(o) (estrutura curricular, extensão universitária, pesquisa-ação), trabalho (organização, ergonomia, saúde, agricultura, extrativismo, empresas recuperadas, empreendimentos de economia solidária, autogestão, catadores), sustentabilidade (energia, água, reciclagem, objetivos de desenvolvimento sustentável), direito à cidade (habitação, mobilidade, acessibilidade), questões de gênero/raça/etnia (desigualdade, opressões, xenofobia), tecnologia (social, assistiva, inclusão digital, software livre) dentre outros.

A ciência e a engenharia são catalizadores das grandes transformações na sociedade, mas para uma verdadeira transformação econômica, social e ambiental de um país como o Brasil, que carrega problemas históricos graves, nestes aspectos, desde sua origem como colônia, é preciso que a engenharia se comprometa de fato com as questões que verdadeiramente importam para uma vida sustentável (defendida por GADOTTI, 2008) do país e do planeta. A Engenharia Popular é um dos caminhos possíveis dentro das engenharias engajadas.

A natureza já nos deu um grande aviso (quiçá ultimato) com a pandemia, até quando vamos esperar para mudar?

Texto escrito por Sandra Rufino, docente do DEP/CT/UFRN. Mestre e Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo e pós-doutora em Tecnologias Sociais pela Université Catholique de Louvain. É membra fundadora e coordenadora do Grupo Multidisciplinar de Ensino, Pesquisa e Extensão em Projetos de Engenharia e Gestão Aplicados ao Desenvolvimento Ambiental e Social (PEGADAS-UFRN), membra fundadora da Rede de Engenharia Popular Osvaldo Sevá (REPOS), conselheira dos Engenheiros Sem Fronteiras (ESF) Brasil e orientadora do ESF Natal. Atua com Engenharia Popular, Tecnologias Sociais e Economia Solidaria desde 2000.

Referências

BAZZO, J. L. S; BAZZO, W. A. Qual formação profissional? Qual responsabilidade social?. In: XXXVIII COBENGE, 2010, Fortaleza. Anais XXXVIII COBENGE. Fortaleza: ABENGE, 2010. v. 1.

BORDIN, L.; BAZZO, W. C. Sobre (in)coerências entre a universidade pública e popular, a engenharia e o desenvolvimento de tecnologias sociais. Educitec, Manaus, v. 05, n. 11, p. 55-72, jun. 2019.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES n. 11, de 11 de março de 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, Seção 1, p. 32, 9 abr. 2002. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CES112002.pdf>. Acesso em: 23 janeiro 2020.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES n. 2, de 24 de abril de 2019. Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, Seção I, p. 43, 26 abr. 2019. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=112681-rces002-19&category_slug=abril-2019-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 23 janeiro 2020.

COLOMBO, Ciliana R. Princípios teórico-práticos para formação de engenheiros civis: em perspectiva de uma construção civil voltada à sustentabilidade. 2004. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Centro tecnológico, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

DWEK, Mauricio. Perspectivas para a formação em engenharia: o papel formador e integrador do engenheiro e o engenheiro educador. 2008. (Graduação em Engenharia Metalúrgica). Escola Politécnica. Universidade de São Paulo, 2008

DWEK, M.. Por uma renovação da formação em engenharia: questões pedagógicas e curriculares do atual modelo brasileiro de educação em engenharia. 2012. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção). Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção, COPPE, Rio de Janeiro, 2012.

FRAGA, L. S. O curso de graduação da faculdade de engenharia de alimentos da UNICAMP: uma análise a partir da educação em ciência, tecnologia e sociedade. 2007. 86p.Dissertação (Mestrado em Política Científica e Tecnológica) – Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2007.

FRANKEL, R. Por uma engenharia de produção comprometida com a sociedade. 2009. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Rio De Janeiro.

GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. São Paulo: Editora e Livraria Paulo Freire, 2008.

INVERNIZZI, Noela; FRAGA, Lais. Educação em Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente. Vol.1, Número Especial. Revista Ciência & Ensino, 2007.

KLEBA, J. Engenharia engajada: desafios de ensino e extensão. Revista Tecnologia e Sociedade, Curitiba, 13, 27, pp. 172-189, 2017.

Leia também: Depoimento: como é ser LGBTQIA+ na Engenharia

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Ser Engenheiros Sem Fronteiras é acreditar na importância da engenharia para o desenvolvimento social e ser protagonista desta transformação. O ESF-Brasil faz parte da rede Engineers Without Borders – International (EWB-I), presente em 65 países ao redor do mundo. Desde 2010 no Brasil já transformamos mais de 84 mil vidas. Acreditamos na importância do envolvimento comunitário, do diálogo e da cooperação. Os projetos são desenvolvidos e executados por voluntários locais organizados em núcleos, que se envolvem pessoalmente com os membros da comunidade, escutam suas necessidades e estabelecem parcerias e amizades. Nós da Diretoria Nacional replicamos essa tecnologia social, capacitando e orientando os líderes destes núcleos para desta forma gerarmos o impacto nos locais que atuamos.

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