A incerteza paira sobre o mercado global: a Inteligência Artificial (IA) vai roubar os empregos dos engenheiros? Essa foi a pergunta provocativa que abriu a Sessão Geral 1 do evento 3DEXPERIENCE World 2026, no qual o Engenharia 360 faz a cobertura.
Em um cenário onde a automação avança a passos largos, as lideranças da SOLIWORKS e Dassault Systèmes trouxeram uma perspectiva que redefine o papel do profissional técnico na era digital. Segundo as fontes, a engenharia não está morrendo; ela está se tornando o “esqueleto” fundamental de toda a revolução tecnológica atual.

A IA como motor, o engenheiro como piloto
Manish Kumar, CEO da SOLIDWORKS, iniciou o evento abordando diretamente o receio de que a IA torne os projetos obsoletos. Embora ele reconheça que tarefas repetitivas e baseadas em padrões possam encolher, sua visão é clara: a IA é apenas um multiplicador de força. Para Kumar, a engenharia vive hoje sua “fase da faísca”, comparável à descoberta do fogo ou à invenção do motor a vapor. Assim como o motor a vapor foi criado para bombear água de minas e acabou construindo cidades modernas, a IA é uma fonte de inovação que levará a descobertas ainda inimagináveis.

O ponto central da fala de Kumar é que “um cérebro precisa de um corpo”. A IA pode aprender padrões e simular movimentos, mas ela não pode desafiar as leis da física. É aqui que entra o engenheiro: para que a IA funcione no mundo físico, são necessários mecanismos, juntas que suportem carga, gestão de calor e materiais resistentes.
Portanto, a engenharia mecânica é, na verdade, a espinha dorsal industrial da própria IA.

Propriedade intelectual como a nova moeda da Economia Generativa
Pascal Daloz, CEO da Dassault Systèmes, elevou a discussão ao introduzir o conceito de Economia Generativa.
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Nesse novo paradigma, a propriedade intelectual (IP) torna-se a verdadeira moeda de troca. O conhecimento, o “know-how” e o julgamento do engenheiro são os ativos mais valiosos.



A visão da Dassault Systèmes é integrar a IA não como um acessório no topo do projeto, mas no “core” (núcleo) da engenharia.
Durante o evento, foram apresentados os Virtual Companions (Companheiros Virtuais), batizados de Ora, Leo e Mari. Diferente de chatbots genéricos, essas IAs são baseadas em décadas de expertise industrial e conhecimento científico:
- Ora: Orquestra conhecimento e contexto, desde requisitos até mudanças de projeto.
- Leo: Focada em raciocínio de engenharia, mecânica, estruturas e manufatura.
- Mari: Especialista em disciplinas científicas, como química, materiais e regulamentações.
Uma demonstração impressionante mostrou “Leo” em ação, transformando um desenho em PDF em um esboço editável e, posteriormente, em uma peça 3D totalmente paramétrica em segundos. Mais do que isso, a ferramenta realizou uma análise de desempenho físico real através de surrogate modeling, uma técnica de simulação acelerada que mapeia resultados de projetos anteriores para novas peças com precisão física.


A velocidade da inovação e o Caso Molteni
Gianpaolo Bassi, Vice-Presidente de Inovação, trouxe uma mudança de métrica essencial para o setor: não basta mais focar no “tempo de mercado” (time to market), o que importa agora é o “tempo de valor” (time to value).
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Segundo o que foi dito na sessão, podemos concluir que a inovação funciona como um volante (flywheel) que, uma vez iniciado, ganha momento e acelera o aprendizado e a confiança.
O caso da Molteni Group, empresa italiana de móveis de luxo, foi o destaque para ilustrar essa transição. Andrea Roer, CIO da Molteni, explicou o desafio de escalar a excelência artesanal “Made in Italy” em uma indústria sob pressão de custos e demanda por personalização.
O objetivo da Molteni é, supostamente, virtualizar o patrimônio e a herança da marca, capturando o conhecimento que antes residia apenas na mente dos artesãos e transferindo-o para uma plataforma digital alimentada por IA. Isso permite criar sistemas de produtos modulares e configuráveis sem perder o rigor e a sensação de artesanato, promovendo ainda princípios de economia circular e durabilidade.






Perspectivas para a virtualizando do conhecimento
A Sessão Geral também detalhou como a plataforma 3DEXPERIENCE está unificando pessoas, aplicações e dados. Morgan Zimmerman, CEO da marca 3DEXPERIENCE, explicou que a plataforma (3DEXPERIENCE) permite “virtualizar o know-how”. Um exemplo prático foi dado por Manish Kumar ao contar sua dificuldade em construir uma mesa em casa durante a pandemia; ele teve que aprender sobre juntas, ergonomia e materiais do zero.








A saber, na indústria, esse conhecimento muitas vezes está disperso em documentos e cabeças de funcionários. Ao virtualizar esse dado na nuvem, a IA pode guiar designers em cada ação baseada na experiência coletiva da empresa.
Além disso, houve anúncios práticos para os usuários de SOLIDWORKS:
- Compra Online: Agora é possível adquirir licenças diretamente pelo site.
- Atualizações rápidas: O tempo de atualização da conexão com a plataforma foi reduzido para apenas 90 segundos.
- Content Explorer: Uma ferramenta que traz a familiaridade do Windows Explorer para a gestão de dados na plataforma, sem perder a potência do banco de dados.
IA para um futuro mais barato, rápido e melhor
O encerramento ficou por conta do inventor Pablos Holman, que trouxe uma reflexão profunda sobre o papel da tecnologia na sobrevivência da humanidade. Holman defende que a IA é a ferramenta que nos permitirá construir um futuro melhor, reciclagem e energia para todos.
Ele citou exemplos disruptivos baseados em IA e engenharia avançada:
- Energia: A necessidade de aumentar em 10 vezes a produção global de energia para atender bilhões de pessoas que hoje vivem com menos eletricidade do que uma “torradeira”.
- Sustentabilidade: O uso de IA para criar enzimas que degradam plásticos em seus monômeros originais, permitindo uma reciclagem infinita sem depender de petróleo.
- Manufatura sob demanda: Fábricas automatizadas que produzem apenas o que é vendido, combatendo o desperdício de indústrias como a têxtil, onde um terço das roupas produzidas nunca são vestidas.
- Construção: A descoberta de como os romanos faziam cimento que durava 2.000 anos (como o Pantheon) e o uso de IA para criar novos materiais com 20% menos emissão de CO2.
Holman enfatizou, inclusive, que estamos vivendo um momento de “correção de curso”. Em vez de usar IA para tarefas triviais ou histórias assustadoras, agora é a hora de aplicá-la na ciência e na engenharia para resolver os problemas reais do planeta.
Conclusão: O engenheiro continua no centro de tudo!
A mensagem final da primeira sessão geral é de otimismo e responsabilidade. Como dito por Manish Kumar e Pascal Daloz, a tecnologia não constrói o futuro sozinha; as pessoas o fazem. A IA é o motor, mas o engenheiro é o piloto que fornece intenção, julgamento e propósito.
O futuro da engenharia não é sobre substituir humanos, mas sobre amplificar sua capacidade de criar um mundo mais sustentável e eficiente.

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Redação 360
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