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Cadê a água do Cantareira?

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4 min

POR Larissa Fereguetti 29/08/2014

Há meses ouvimos falar da falta de água do Sistema Cantareira. Muitos questionam a afirmação, pois dizem que o Brasil possui muita água. Curioso que, ao mesmo tempo que a região Sudeste sofria (e ainda sofre) com a falta de água no Cantareira, a região Norte sofria devido a alagamentos no princípio do ano. Sem contar a região Nordeste, onde a seca tornou-se “comum” ou a região Sul, onde os alagamentos são constantes. A questão é que o Brasil é enorme e não dá para generalizar. Cada seca ou alagamento provém de diferentes questões que dão ótimas reflexões, mas meu objetivo é falar da falta de água no Sistema Cantareira.

O que é o Sistema Cantareira?

 O Sistema Cantareira é um conjunto de seis represas (Jaguari/Jacareí, Cachoeira, Atiabainha, Águas Claras e Paiva Castro) que abrange 12 municípios, nenhum em sua totalidade, sendo quatro deles no estado de Minas Gerais (Camanducaia, Extrema, Itapeva e Sapucaí-Mirim) e oito em São Paulo (Bragança Paulista, Caieiras, Franco da Rocha, Joanópolis, Nazaré Paulista, Mairiporã, Piracaia e Vargem). Sua área aproximada é de 2.279,5 km².

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Esquema do Sistema Cantareira. Fonte: planodecontingência.com.br

O que o clima tem a ver com a falta de água do Cantareira?

Deu para notar que, pelo menos na região Sudeste, a chuva não foi como estamos acostumados a ver todos os anos. Qual chuva? Exatamente, quase não choveu. Menos chuva significa menos água no reservatório. A expectativa é que daqui pra frente as chuvas sigam o padrão anual. Em meteorologia existe a normal climatológica, que é calculada por meio de médias climatológicas durante um período de 30 anos, podendo, assim, ter uma base do comportamento climatológico. Entretanto, nem sempre podemos generalizar e não se sabe se as chuvas ficarão abaixo ou acima da média.

Então, o problema é só a falta de chuva?

NÃO! Além da falta de chuva há também o crescimento populacional, que implica crescimento do consumo (mas não é a única causa do aumento do consumo) e o desperdício de água. Claro que quando você escova os dentes com a torneira aberta ou quando varre a rua com a mangueira está desperdiçando água, mas, nem sempre o trajeto da água dos reservatórios até as casas acontece de maneira eficiente como nos exercícios do seu livro de hidráulica. Há uma considerável perda de água no trajeto que, em 2013, chegou a 25% da água transportada em São Paulo.

O que é o volume morto?

O volume morto é um reservatório água situado abaixo das comportas das represas. Conhecida também como reserva técnica, essa água nunca foi utilizada para atender a população do Cantareira. Trata-se de uma quantidade de água que fica abaixo do nível de captação usual do sistema e que, por esse motivo, precisa ser bombeada para chegar aos túneis que coletam a água. O volume morto do Cantareira começou a ser explorado em 15 de maio, quando 182,5 bilhões de litros foram retirados da reserva técnica do sistema, localizada abaixo das comportas e que conta com um total de 300 bilhões de litros.

Foram necessários R$80 milhões para incluir 3 km de tubulação e 7 bombas para utilizar o volume morto. Antes, não era preciso utilizar o volume morto, por isso as bombas não existiam. O trajeto da água em São Paulo é feito por meio de túneis. A água escoa por gravidade e é coletada em diferentes profundidades. Quando a água corre, há sedimentos em suspensão e, quando ela para, tais sedimentos se depositam no fundo. O volume morto seria, basicamente,um volume para provisionar espaço para os sedimentos. O volume morto do Cantareira não possui muitos sedimentos, podendo ser parte dele utilizada no abastecimento.

Até quando vai durar a água do Cantareira?

Ninguém sabe ao certo. A ANA – Agência Nacional de Águas divulgou previsão de que a água no Sistema Cantareira dura até novembro deste ano. Segundo o governo estadual em São Paulo, o volume morto garante o abastecimento até março de 2015. A expectativa é que a estação de chuvas, a partir de outubro, principalmente, possa reverter o atual quadro.  Devido às variações climáticas, em anos com muitas chuvas e anos com poucas chuvas, é impossível saber se haverá ou não água dentro de algum tempo. No site da SABESP é possível ver o índice de armazenamento e pluviometria das represas que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo na data de acesso ou anterior. Mesmo com a entrada do volume morto em maio, a situação não está nada agradável.

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E agora?

Agora, é hora de começar a fazer a dança da chuva e torcer para que chova bastante. Além disso, você também pode começar a economizar água em sua residência. Não adianta reclamar da falta de água se você esquece sua torneira aberta. No Brasil, a disseminação do reuso da água ainda é pequena, talvez porque ainda existe a concepção de que temos muita água. Vale lembrar que nosso tratamento de esgoto não atinge todo o país e que vários rios têm sido classificados como inadequados para o abastecimento. Então, mesmo com muita água, será que toda ela é adequada para o consumo?

Referências: Silva (2012); SABESP; G1, Folha de São Paulo; Benedito Braga (Entrevista).

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Larissa Fereguetti

Doutoranda, mestre e engenheira. Fascinada por tecnologia, curiosidades sem sentido e cultura (in)útil. Viciada em livros, filmes, séries e chocolate. Acredita que o conhecimento é precioso e que o bom humor é uma ferramenta indispensável para a sobrevivência.

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