Engenharia 360

Quanto agrotóxico tem na sua água? Os números são assustadores!

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por Larissa Fereguetti
| 25/04/2019 | Atualizado em 06/06/2022 5 min
Imagem: h9j.com.br

Quanto agrotóxico tem na sua água? Os números são assustadores!

por Larissa Fereguetti | 25/04/2019 | Atualizado em 06/06/2022
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O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo e ele está na primeira posição da lista há tempos. Porém, essas substâncias não estão apenas nos alimentos, elas vão parar na água que consumimos. Um estudo recente mostrou que 25% das águas das cidades brasileiras estão contaminadas com agrotóxicos.

O que é agrotóxico?

Agrotóxico, pesticida, defensivo agrícola, agroquímico, etc. O nome pode variar, porém, basicamente, são todos produtos de origem química ou biológica aplicados em culturas agrícolas para eliminar as pragas e as doenças, de modo que a produção não seja prejudicada. O tipo de agrotóxico pode variar de acordo com sua função, como herbicida, fungicida, pesticida, etc. (Não confundir com fertilizante!).

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agrotóxicos
Imagem: noticias.uol.com.br

Porém, enquanto a produção é lucrativa, a saúde da população é afetada pelas substâncias utilizadas nas plantações. Não só quem aplica o produto está suscetível aos danos na saúde, mas também quem consome das plantações, quem habita nas proximidades ou mesmo quem bebe água que foi contaminada. Isso quer dizer que, mesmo que você só ingira produtos orgânicos e cultivados sem qualquer defensivo agrícola, você pode estar ingerindo agrotóxicos.

Agrotóxicos no Brasil

No Brasil, o consumo do agrotóxico é de 7,3 litros por ano por pessoa. Parece pouco, mas multiplique pelo número de brasileiros e veja que o número é absurdo.

Um dos grandes problemas é relacionado à legislação, que permite não só o uso de uma quantidade grande (pode chegar a cerca de 400 vezes o permitido na Europa), como também libera substâncias que são proibidas em várias partes do mundo.

agrotóxicos
Imagem: galwaydaily.com

Aqui, a lei que trata sobre “a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos” é a de número 7.802 de 1989. Ela até impõe algumas proibições, porém, ainda estamos muito, muito atrasados com relação ao resto do mundo.

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Se a sua pergunta é “por que o Brasil simplesmente não proíbe?”, a resposta é simples. Pense no tamanho da produção agropecuária do país (a pecuária está envolvida porque boa parte da produção agrícola é destinada para alimentar o gado). Tirar os agrotóxicos seria basicamente afundar o país, o que deixaria muita gente nervosa. Exigir alternativas também não é fácil, visto que muitas são caras e não possuem a mesma eficiência dos produtos já utilizados. Claro que há também o lucro das indústrias que produzem os agrotóxicos...

agrotóxicos
Imagem: poisonboy.com

Ao começar a ver os números dos agrotóxicos, a vontade é de fechar os olhos e ignorar (como fazemos com várias questões importantes). Porém, como engenheiros e engenheiras que não fogem da luta, vamos lá. O Dossiê da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) reuniu alguns números:

  • 64% dos alimentos estão contaminados com agrotóxicos;
  • Entre 2007 a 2014, foram registradas 34.147 notificações de intoxicação por agrotóxicos;
  • Houve um aumento absurdo de 288% no uso dos agrotóxicos entre 2000 e 2012.
  • O faturamento da indústria de agrotóxicos no Brasil em 2014 foi de 12 bilhões de dólares.

Para completar, uma pesquisa recente mostrou houve identificação de diferentes agrotóxicos em 1 a cada 4 cidades brasileiras entre 2014 e 2017.

Agrotóxico nas águas brasileiras: um problema invisível

No período entre 2014 e 2017, as empresas responsáveis pelo abastecimento de 1.396 cidades detectaram a presença de 27 agrotóxicos nas águas testadas. Isso porque elas são obrigadas a testar apenas 27. É provável que teriam detectado mais se outros testes fossem feitos. Ainda, dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não fizeram testes no período. Ou seja, os números podem ser maiores e ainda mais assustadores.

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Das 27 substâncias, 11 estão relacionadas a doenças crônicas, como câncer, e 16 são classificadas como extrema ou altamente tóxicas pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Ao longo dos anos, a presença de agrotóxicos aumentou, indo de 75% dos testes em 2014 para 92% em 2017.

Se você acredita que a água tratada não possui agrotóxico, aqui vai a bomba: nem todo tratamento elimina todos os agrotóxicos, de forma que o seu copinho de água pode conter um pequeno coquetel deles. O tratamento de água convencional, por exemplo, não é concebido com o intuito de remover agrotóxicos. Para isso, é preciso de soluções específicas e mais caras. A água mineral não foge do risco de contaminação, já que deve ser captada de algum lugar.

agrotóxicos
Imagem: galwaydaily.com

Dentre as capitais com água contaminada, é possível citar São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas. Grande parte das cidades que detectaram todos os 27 agrotóxicos testados estão em São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Porém, vale ressaltar que muitas cidades não fizeram os testes, principalmente no Norte e no Nordeste. Você pode consultar os dados do seu município nesse mapa interativo.

agrotóxicos
Imagem: cartacapital.com.br

O problema torna-se maior ainda quando pensamos que mesmo um agrotóxico inofensivo pode ser danoso para a saúde quando misturado com outras substâncias. Esse efeito não é nem monitorado. Ainda, no Brasil a quantidade das substâncias é monitorada isoladamente e, assim, um copo de água pode ter a quantidade limite de cada uma das 27 substâncias (tornando-se um copo de veneno). No exterior, o monitoramento é feito com uma quantidade limite para a soma das concentrações dos agrotóxicos.

A questão é maior do que parece. Não adianta impor limites nas concentrações se eles são elevados o suficiente para que os testes mostrem resultados supostamente seguros. Vários grupos protestam contra o uso de agrotóxicos, mas o efeito ainda é pequeno e insuficiente para promover medidas eficazes. Enquanto isso, novos agrotóxicos entram na lista para aprovação e, em breve, é bem provável que nossa água seja tão tóxica que o peixe de mil olhos do filme dos Simpsons (old but gold) seja tão comum quanto um pombo no telhado.


Fontes: Carta Capital; Lei 7.802/1989; Galileu; ABRASCO.

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Larissa Fereguetti

Cientista e Engenheira de Saúde Pública, com mestrado, também doutorado em Modelagem Matemática e Computacional; com conhecimento em Sistemas Complexos, Redes e Epidemiologia; fascinada por tecnologia.

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