Engenharia 360

ESCOLHA A ENGENHARIA
DO SEU INTERESSE

Digite sua Busca

Engenharia 360

O engenheiro microgerente

Engenharia 360
por Engenharia 360
| 06/02/2012 4 min

O engenheiro microgerente

por Engenharia 360 | 06/02/2012
Copiado!

O microgerenciamento é um modelo de gestão pautado pela incursão do gestor nas atividades operacionais dos processos produtivos, performance comum de engenheiros quando ocupam cargos de gestão. É um estilo de gerenciar que, como todos os outros, possui benefícios e malefícios. É claro que os gerentes devem se envolver sim com os colaboradores, mas eles não podem esquecer de que o seu trabalho é orientar a equipe, supervisionar o trabalho e cobrar resultados.

Ocorre que muitas vezes o gerente ocupa-se de auxiliar os colaboradores na execução de tarefas, pelas necessidades da empresa ou pela configuração do quadro hierárquico – ou também, não se pode descartar – pela tendência ao comportamento microgerencial. O microgerente geralmente está mais atento àquilo que se passa no setor, uma vez que acompanha cada passo de perto.

Por outro lado, isso pode afetar negativamente a qualidade do trabalho, uma vez que super administrar o trabalho de outrem – ou fazer por ele – pode desmotivar ao invés de motivar. Pode comprometer também o nível de gerenciamento, pois o microgerente, se não se atém ao que lhe realmente compete, perde tempo com coisas mínimas quando poderia estar elaborando estratégias e estabelecendo metas produtivas com maior dedicação. Isso quando o microgerente não se põe a criticar, repetidamente, tudo o que vê (porque faz questão de ver tudo, sem dar tempo de o colaborador tentar ser mais elaborado).

gerente de projetos

Há um caso famoso de microgerente – o falecido CEO da Apple, Steve Jobs, como mostra Leander Kahney no livro “A cabeça de Steve Jobs”.  Steve foi o típico microgerente. E ele não era nem gerente, ele era o CEO (Chief Executive Officer, a nova nomenclatura para o maior cargo executivo da maioria das empresas). Ele se preocupava com os mínimos detalhes (dá pra perceber porque os “iProducts” são verdadeiras obras de arte). Segundo o autor do livro, Steve dava palpite aos designers (design para ele é função), além de dar uma “stevada” nos engenheiros, acompanhando a fabricação e ainda levando os produtos para testar em casa.

Já trabalhei com um microgerente. Felizmente, suas qualidades compensavam os problemas do microgerenciamento. Vou chamá-lo de João. Quando fui apresentado a ele pela primeira vez, não associei a sua postura a um cargo de poder tão relevante (naquela empresa, a gerência fica logo abaixo da diretoria). João mantinha certo distanciamento hierárquico, é verdade, mas agia com naturalidade, sem cerimônias. Em outras palavras, não era um homem de grandes formalidades.

Era formado em duas engenharias, possuía um mestrado em engenharia e estava terminando um MBA. Também havia sido professor universitário – e tinha didática em tudo. Demonstrava deter – e, de fato, detinha – muito conhecimento e experiência profissional.  Depois, conversando com o meu superior imediato, que já havia trabalhado com o ele em outra empresa, vim a saber que a empresa não tinha apenas um setor atípico (as empresas desse ramo vinham então terceirizando essa área), mas um setor atípico liderado por um gerente atípico.

engenheiro imagem ilustrativa representando microgerente

Fazia calor no dia em que o conheci. Era a segunda vez que visitava os escritórios da companhia. Havia sido chamado para o exame médico e os trâmites necessários para a contratação. Na hora do almoço, forneceram-me um tíquete-alimentação e me adentraram no refeitório corporativo.  Sentei-me à mesa com o meu superior imediato e com o gerente, João. Este me perguntou sobre o que eu pretendia para a minha vida. Como na entrevista de emprego, eu respondi dizendo que pretendia trabalhar, mas que continuaria estudando, embora soubesse que é positivo que os chefes sintam que os funcionários colocam o trabalho em primeiro lugar em suas vidas, mesmo isso nem sempre sendo verdadeiro. Para minha surpresa, João me disse, tranquilamente:

– Não deixe que o trabalho atrapalhe os seus estudos.

Algumas experiências que me foram relatadas podem ilustrar perfeitamente o que pretendo dizer.  Certa vez João avistou um funcionário de baixo escalão se alimentando fartamente em horário indevido.  Para engano do próprio funcionário e de quem estava nas adjacências, nenhuma advertência foi feita. João, num gesto inesperado, pediu um pouco para que provasse. O despojo e a simplicidade do gerente, deliberados ou não, alcançaram a simpatia dos colaboradores.

O lema de João era “honestidade e boa vontade”. Para ele, um funcionário que errasse merecia perdão se a intenção era acertar. Infere-se daí que ele valorizava a cultura do aprendizado nas relações trabalhistas. Meu superior imediato costumava compará-lo a Simeão, o alto-executivo que se tornou monge e passou a dar lições de liderança, personagem do livro “O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter. “João é um gerente que você não pode tomar como padrão”, dizia.

Nesse sentido, eu tive a sorte de ter um gerente como ele, que apesar de tudo sabia ser um líder. Mas as coisas nem sempre são assim.

***

Acredito  que a melhor forma de gerenciar é dar condições para as pessoas darem o melhor de si para atingir os objetivos que são propostos. É não negar ao trabalhador que, de certa forma (e isso pode soar um pouco egoísta) ele é sim um recurso, um capital a ser explorado. Mas não deixar de reconhecer a sua importância e as suas necessidades enquanto ser humano, o que também significa dar tempo e espaço para que ele se sinta capaz de executar e execute o trabalho de forma bem feita, sentindo-se feliz por isso. Faz bem enfiar o dedo no bolo às vezes, mas não o tempo todo, e muito menos sair por aí lambuzando todo mundo.

Copiado!
Engenharia 360

Engenharia 360

Engenharia para todos.

Comentários