Existe um erro silencioso acontecendo dentro da engenharia — e ele não está no cálculo estrutural, nem no dimensionamento de sistemas. Está nas decisões humanas, no etarismo. Mais especificamente, na forma como o mercado tem tratado a idade dos seus próprios talentos.
Imagina um engenheiro de 76 anos, ainda em campo, analisando levantamento, orientando drones, identificando riscos, questionando performance de equipamentos. Não como figura simbólica, mas como peça ativa em projetos complexos, especialmente em cenários de retrofit e brownfield — aqueles onde o projeto não começa do zero, mas precisa lidar com a realidade cheia de surpresas.
Nesse contexto, existe uma verdade incômoda: experiência não é nostalgia — é compressão de erro.

Quem já viu um problema acontecer, enxerga sinais antes que ele se materialize. Quem já lidou com falhas reais toma decisões com outro nível de consciência. E isso, na engenharia, não é detalhe. É o que separa eficiência de retrabalho, segurança de risco, lucro de prejuízo. O Engenharia 360 te convida a refletir mais sobre o caso.
O paradoxo do mercado: mais velho, mas menos valorizado
Os dados mostram um cenário curioso — e preocupante. O número de profissionais com mais de 50 anos no Brasil dobrou em 15 anos. Hoje, são cerca de 8,7 milhões de trabalhadores nessa faixa etária. E a tendência é clara: até 2040, a maioria da força de trabalho será composta por pessoas acima dos 45. Ao mesmo tempo, as empresas ainda operam com um filtro invisível: a idade.
A contradição é evidente. Enquanto a população envelhece e se mantém produtiva por mais tempo, o mercado insiste em tratar a maturidade como um problema, não como ativo. Em muitos casos, profissionais experientes enfrentam dificuldade de recolocação, longos períodos fora do mercado ou são simplesmente ignorados em processos seletivos. E o mais curioso: isso acontece mesmo quando essas pessoas estão no auge da capacidade técnica.
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O custo invisível do etarismo
O etarismo não é apenas uma questão social ou ética. É, antes de tudo, um erro estratégico.
Quando empresas descartam profissionais experientes, elas não estão apenas reduzindo diversidade — estão abrindo mão de algo difícil de medir, mas extremamente valioso: capacidade de julgamento.
Em engenharia o risco não está só nos números. Ele está em variáveis como:
- interface entre sistemas
- sequência de execução
- janelas operacionais
- comportamento real da planta
- imprevistos acumulados ao longo do tempo
Esse tipo de risco não se aprende apenas em sala de aula ou simuladores. Ele é absorvido ao longo de décadas. Ignorar isso significa, na prática, aceitar um aprendizado mais caro: o erro real.
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Inovação sem experiência é experimento caro
O discurso dominante no mercado gira em torno de inovação. Novas tecnologias, inteligência artificial, automação, digitalização. Tudo isso é real — e necessário. Mas existe um equívoco perigoso nessa narrativa: acreditar que inovação substitui experiência. Não substitui.
Inovação sem base prática tende a gerar decisões frágeis. Soluções elegantes no papel que falham na execução. Projetos tecnicamente corretos que não sobrevivem à operação.
A engenharia não é um laboratório isolado. Ela impacta estruturas que precisam funcionar por décadas. E é aí que entra o fator humano que nenhuma tecnologia resolve sozinha: o julgamento.
IA não substitui quem sabe decidir
A inteligência artificial está transformando a engenharia — isso é inegável. Ela acelera cálculos, simula cenários, otimiza processos. Mas existe um limite claro. IA não toma decisão sob incerteza real. Ela não vivencia falhas; não acumula contexto; não carrega memória de projetos que deram errado em condições específicas. Por isso, o futuro mais consistente não é uma disputa entre gerações.
É uma combinação.
- profissionais seniores atualizados + tecnologia
- jovens talentos com domínio digital + mentoria real

O valor das equipes multigeracionais
Empresas menores, mais próximas da operação, muitas vezes já entenderam algo que grandes estruturas ainda resistem: times mistos funcionam melhor.
Quando diferentes gerações trabalham juntas, acontece um intercâmbio real:
- jovens trazem velocidade, domínio tecnológico e novas abordagens
- experientes trazem visão sistêmica, resiliência e antecipação de risco
O resultado não é apenas soma — é multiplicação.
Além disso, profissionais mais experientes carregam habilidades comportamentais altamente valorizadas:
- comunicação clara
- senso de urgência
- organização
- capacidade de lidar com pressão
- leitura de contexto
Essas competências, muitas vezes chamadas de soft skills, são difíceis de desenvolver rapidamente — e ainda mais difíceis de automatizar.
O estereótipo que não se sustenta
Parte do problema vem de uma percepção equivocada: a ideia de que profissionais mais velhos são menos adaptáveis, menos tecnológicos ou mais caros. Na prática, isso não se sustenta. Há inúmeros exemplos de profissionais que continuam aprendendo, se atualizando e se reinventando — muitas vezes com mais disciplina do que gerações mais novas.
Cursos, novas ferramentas, domínio de software, adaptação ao digital. Tudo isso já faz parte da rotina de quem decidiu continuar relevante. O que falta, muitas vezes, não é capacidade — é oportunidade.
Engenharia é responsabilidade de longo prazo
Existe uma diferença fundamental entre engenharia e outras áreas: o impacto das decisões não é imediato — ele se estende por anos, às vezes décadas. Uma escolha mal feita hoje pode gerar problemas operacionais por muito tempo. Por isso, experiência não é luxo. É uma camada de segurança. Especialmente em ambientes complexos, como retrofit, onde: não existe projeto perfeito — existe decisão sob incerteza. E nesse cenário, quem já enfrentou problemas reais tem uma vantagem clara.
O futuro não é jovem. Nem velho. É inteligente.
O mercado de trabalho está envelhecendo. A engenharia está se tornando mais complexa. A tecnologia está avançando rapidamente. Ignorar qualquer um desses fatores é um erro. Mas ignorar a experiência acumulada é, talvez, o mais caro deles.
O futuro da engenharia não será definido por idade, mas por capacidade de integrar conhecimento, tecnologia e julgamento. E isso só acontece quando existe diversidade geracional de verdade.
A pergunta que fica
Na sua empresa, o etarismo aparece — mesmo que de forma silenciosa? E mais importante: seu time está preparado para equilibrar juventude e experiência ou ainda está preso a um modelo que descarta justamente quem poderia evitar os maiores erros? Porque, no fim das contas, a engenharia não falha por falta de inovação. Ela falha quando ignora aquilo que já foi aprendido.
Veja Também: Quebrando paradigmas: a terceira idade na engenharia
Fontes: Acontecendo Aqui, Enrique Santander (LinkedIn), O Tempo.
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Eduardo Mikail
Engenheiro Civil e empresário. Fundador da Mikail Engenharia, e do portal Engenharia360.com, um dos pioneiros e o maior site de engenharia independente no Brasil. É formado também em Administração com especialização em Marketing pela ESPM. Acredita que o conhecimento é a maior riqueza do ser humano.
