A engenharia global está passando por uma metamorfose sem precedentes, e o epicentro dessa mudança não é apenas o software, mas a forma como o ser humano interage com ele. Em uma conversa reveladora entre Eduardo Mikail, engenheiro civil e fundador do Engenharia 360, e Craig Therrien, Senior Portfolio Manager da 3DEXPERIENCE WORKS, durante o 3DEXPERIENCE World 2026, ficou claro que a era de “saber onde clicar” está chegando ao fim para dar lugar a uma era de “saber o que perguntar”.

A morte do “Click-and-Pick” e o nascimento do criador intenso
Craig Therrien descreve um cenário onde a barreira técnica da modelagem está desaparecendo rapidamente. Imagine converter PDFs e imagens simples em modelos paramétricos complexos em questão de segundos. Segundo Craig, estamos caminhando para uma democracia da arte e do design, onde o papel do estudante e do profissional muda drasticamente: de um mero operador de software para um criador intenso.
“(…) a barreira técnica de saber onde clicar está desaparecendo. Se o software não controla a forma, a regra dos estudantes muda de operador para criador intenso”
O objetivo central da Inteligência Artificial (IA) na engenharia, conforme discutido na entrevista, é remover as tarefas repetitivas e tediosas que consomem o tempo precioso dos profissionais. Ao eliminar o trabalho braçal do “click-and-pick”, a IA libera o engenheiro para focar no que realmente importa: a verdadeira engenharia, que envolve aprender, conceber ideias, testar hipóteses e otimizar projetos.
“O que estamos fazendo é que estamos tentando tirar as coisas repetitivas, as coisas que você faz de vez em quando, as tarefas repetitivas, e tirar isso do caminho o mais possível, para que você possa fazer o trabalho que você realmente quer fazer, que é engenharia, engenharia verdadeira, aprendendo, chegando à ideia, testando a ideia”
O poder das novas Soft Skills
O profissional do futuro precisa aprender a “enquadrar” o problema para a IA. Craig detalha essa necessidade: “As habilidades soft skills vão ser mais… realmente entendendo como enquadrar a IA. Quais perguntas perguntar e como interpretar as respostas às vezes que você está recebendo”. Ele complementa que o diferencial será saber “pesquisar mais profundamente essas respostas… e poder pesquisar aquele pedaço de informação que você realmente precisa”.
Para extrair valor das ferramentas generativas, o profissional precisa:
- Saber quais perguntas fazer à máquina.
- Saber interpretar e validar as respostas recebidas.
- Desenvolver a capacidade de realizar uma pesquisa profunda baseada nos resultados da IA, refinando a busca até encontrar a informação exata necessária para o projeto.
Essa mudança de paradigma altera a principal métrica de sucesso da indústria. Não estamos mais falando apenas de “tempo para o mercado” (time to market), mas sim de “tempo para o valor” (time to value).
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A IA oferece opções que o engenheiro talvez não tivesse considerado, permitindo que ele investigue ideias geradas automaticamente e encontre a melhor solução possível dentro do cronograma estipulado.
Veteranos versus nativos da IA
Um dos pontos mais humanos da entrevista foi o relato de Craig sobre sua própria carreira de 35 anos na indústria de CAD. Como um “engenheiro mais velho”, ele admite o desafio de transitar do modo manual de fazer as coisas para a orquestração de assistentes virtuais como Leo, Aura e Marie.
Craig observa com admiração que os novos graduados já saem da faculdade como “nativos da Idade IA”, tendo utilizado modelos como ChatGPT e Gemini por anos. Para esses jovens, pedir que a IA gere um motor de avião funcional é algo natural, enquanto para veteranos, isso ainda pode parecer “loucura” à primeira vista.
Entretanto, Craig enfatiza que essa transição é uma aventura divertida. O segredo do sucesso reside no intercâmbio: os veteranos oferecem sua experiência de indústria — o conhecimento de como uma empresa funciona, desde o conceito até a fabricação e entrega —, enquanto os jovens trazem a fluidez no uso das ferramentas de IA para encontrar informações e acelerar processos.
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A revolução mais importante desde o 3D Paramétrico
Para quem pensa que a IA é apenas um “hype”, Craig faz uma comparação histórica poderosa. Ele afirma que a inteligência artificial é a inovação mais importante que ele viu desde a introdução da modelagem baseada em features, associativa e paramétrica em 3D. Assim como a mudança do 2D para o 3D transformou a indústria décadas atrás, a integração da IA com softwares como o SOLIDWORKS está redefinindo os limites do que é possível criar.
Propriedade intelectual na Economia Generativa
Uma preocupação comum no setor é a segurança dos dados. Como escalar a inovação sem que a Propriedade Intelectual (IP) se torne apenas “alimento” para modelos globais de treinamento de IA?. Craig tranquiliza os profissionais, explicando que as aplicações da 3DEXPERIENCE estão sendo desenvolvidas para que o conhecimento capturado permaneça dentro da empresa.
A beleza desse sistema é que a IA pode aprender as práticas específicas de modelagem e as regulamentações internas de uma companhia, ajudando novos funcionários a atingirem a senioridade muito mais rápido sem expor segredos industriais ao público. É a virtualização do conhecimento em um “fator de conhecimento” seguro.
O engenheiro ainda é o “capitão do navio”
Apesar de toda a automação, Craig é enfático ao dizer que a base da engenharia e o conhecimento do CAD como ferramenta fundamental continuam sendo indispensáveis. A IA facilita o processo, mas a inteligência por trás da lógica do projeto ainda pertence ao engenheiro.
O conceito chave aqui é a “intenção de desenho” (design intent). É ela que garante que, se uma dimensão do modelo for alterada, todo o sistema responda de maneira lógica e funcional. Craig explica: “A intenção de desenho é realmente capturar seu conhecimento de engenharia. É capturar sua inteligência que você está colocando no desenho. Agora, você está colocando essa inteligência em um modelo CAD, mas é realmente a sua inteligência de sua ideia de desenho”
Temos um futuro incrível pela frente!
Encerrando a entrevista, Craig Therrien compartilhou uma visão nostálgica e otimista. De um tempo onde problemas de software eram relatados em papéis escritos à mão e as empresas nem tinham computadores nas oficinas, para a era dos iPhones e da IA integrada, a evolução é “mágica”.
Sua mensagem para os profissionais da Engenharia 360 no Brasil é a seguinte: estamos apenas no começo de algo grandioso. Embora ele brinque sobre estar no fim de sua carreira, ele expressa o desejo de estar começando agora, pois o futuro para as engenharias mecânica, elétrica e todas as outras profissões será absolutamente incrível.
A IA não é uma ameaça, mas o combustível que permitirá aos engenheiros falharem mil vezes no mundo virtual para que o sucesso físico seja imediato e fluido.
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Redação 360
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