Engenharia 360

ESCOLHA A ENGENHARIA
DO SEU INTERESSE

Digite sua Busca

6 min

POR Eduardo Mikail 16/09/2012

Aris com a bateria brasileira em rua da Cidade Universitária, em São Paulo

Baterias de lítio estão por toda a parte, com celulares e notebooks, os aparelhos mais comuns que possuem esse tipo de dispositivo. Ao acumular e liberar energia elétrica nesses apetrechos eletrônicos, elas tornam mais fácil e divertida a vida de todos. Em formato maior e com mais potência, essas baterias são o principal componente dos mais recentes carros elétricos, como o Leaf, da Nissan, já em testes em dois táxis na cidade de São Paulo, ou híbridos com motor a gasolina, como o Volt, da GM. São veículos que quase não emitem poluentes e por isso têm um forte apelo ambiental ao se tornarem uma fonte de energia limpa em relação aos motores movidos a derivados de petróleo.

Produzido por mais de uma dezena de empresas no mundo, esse tipo de bateria teve o primeiro protótipo feito no país apresentado em julho pela Electrocell, uma pequena empresa instalada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), na Cidade Universitária, em São Paulo. Logo em seguida, ele foi instalado em uma pequena caminhonete, que leva o nome de Aris, capaz de transportar 350 quilos de carga. A caminhonete, que é silenciosa, faz parte de um projeto da CPFL, empresa distribuidora de energia no interior paulista, e foi executado pela Edra, indústria de carros especiais com sede em Rio Claro (SP). Inicialmente dotado de baterias chinesas, o veículo que ganhou um equivalente brasileiro agora poderá se tornar viável comercialmente para nichos específicos, como para a própria CPFL, na entrega de correspondências, no transporte de equipamentos eletrônicos ou na distribuição de ingredientes em restaurantes.

“Já identificamos os parceiros de toda a cadeia de tecnologia automotiva”, diz Flávio Eduardo Lopes, diretor da Edra. Montar uma fábrica de caminhonetes elétricas exigirá um investimento de R$ 10 milhões para produzir mil unidades por ano. “Com essa produção e levando em conta que a bateria custa metade do preço do veículo, é possível dizer que cada Aris saia por cerca de R$ 60 mil”, diz Lopes. “Ele é viável, embora mais caro que os veículos flex similares, porque cada bateria deve durar 10 anos, equivalente a rodar cerca de 300 mil quilômetros.” Capaz de atingir a velocidade máxima de 80 quilômetros por hora e ter autonomia sem precisar reabastecer por 100 quilômetros, o Aris leva até sete horas para ser recarregado em uma tomada comum de 220 volts.

Um número maior de veículos elétricos no total da frota planetária é esperado de forma lenta mas progressiva. Nos Estados Unidos, segundo um estudo sobre a industrialização da bateria de íon de lítio do Center on Globalization, Governance & Competitiveness da Universidade Duke, publicado em outubro de 2010, mais da metade das vendas de veículos novos no mercado norte-americano deverá ser, em 2020, de carros e utilitários híbridos ou elétricos. Na conclusão do documento, os pesquisadores liderados por Marcy Lowe afirmam que a indústria automobilística está deixando os motores a gasolina para investir na motorização elétrica e que a chave para essa mudança são as baterias avançadas de lítio. “Os Estados Unidos devem ser capazes de produzir baterias de íon de lítio para se manterem competitivos”, alerta o documento.

O mercado mundial de baterias estará aquecido em breve, segundo indicam projeções da consultoria alemã Roland Berger. De acordo com o relato do início deste ano, o mercado de baterias de íon de lítio para uso automotivo deve superar os US$ 9 bilhões em 2015. Na área estrita das baterias avançadas, próprias para uso em sistemas e equipamentos elétricos, o mercado deve chegar a US$ 7,6 bilhões em 2017, segundo a consultoria americana Pike Research.

O mercado para o uso dessas baterias em sistemas elétricos é outro foco da Electrocell. Nesses sistemas chamados de redes elétricas inteligentes, mais conhecidas como smart-grids, o consumidor, principalmente empresas, terá papel importante no monitoramento e gerenciamento da energia elétrica consumida. Cada consumidor poderá gerar e distribuir a própria energia com sistemas solares ou eólicos, por exemplo, e a eletricidade poderá ser acumulada em baterias de lítio. As baterias também poderão ser carregadas em horários de menor consumo, como nas madrugadas, para uso da eletricidade mais barata durante o horário de pico entre 19 horas e 22 horas, quando a tarifa é mais cara. Para funcionarem plenamente, ossmart-grids ainda dependem de legislação específica no Brasil.

Bateria da Electrocell formada por módulos é instalada em caminhonete

Segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que apresentou em dezembro de 2011 o estudo Redes elétricas inteligentes: contexto nacional, já estão catalogados 178 projetos de smart-grids no país, em programas de pesquisa e desenvolvimento coordenados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Eles englobam desde sistemas de medição inteligente de energia elétrica até geração e distribuição de eletricidade em microrredes, por exemplo, circunscritas a uma empresa que tenha sistemas eólicos ou solares. Os 178 projetos já totalizam investimentos de R$ 411 milhões. Em dados coletados e analisados pelo CGEE, China, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos lideram as projeções financeiras estimadas para os projetos de modernização das respectivas redes de energia. No total, até 2030, deverão ser investidos US$ 178 bilhões nessas redes inteligentes.

Para participar do mercado de smart-grids e dos carros elétricos nacionais, a Electrocell está projetando construir uma fábrica em 2013 para produzir as baterias de íon de lítio. “Estamos negociando os investimentos com empresas de capital de risco e bancos de investimento”, revela Gilberto Janólio, engenheiro e sócio da Electrocell. A empresa iniciou suas atividades em 2000, com um projeto sobre células a combustível, um tipo de bateria que produz eletricidade com hidrogênio, financiado pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP (ver Pesquisa FAPESP nº 92 e nº 173).

O desenvolvimento da bateria no Brasil foi um desafio para a Electrocell, que levou um ano e meio para deixá-la pronta. “Foi um desenvolvimento de engenharia de integração em que definimos o controle e o equilíbrio da carga elétrica de cada elemento da bateria e a disposição de todo o conjunto, tudo em sintonia com osoftware de controle do carro, além do desenvolvimento de engenharia de choque e vibração”, diz Janólio. “Outro fator importante foi o desenvolvimento de um sistema de ventilação próprio para o clima quente do país”, diz Volkmar Ett, outro sócio da Electrocell. Para produzir as baterias, a empresa se aliou à Cegasa, empresa espanhola fabricante de pilhas e baterias que atua no Brasil há dois anos. Na Espanha, a Cegasa desenvolve baterias de forma experimental para a fabricante de automóveis espanhola Seat, que é controlada pela Volkswagen. “Eles nos fornecem as pastilhas de lítio e nós construímos a bateria”, diz Janólio.

O mercado dessas baterias ainda inclui os ônibus híbridos, com motores elétricos e convencionais, pequenos caminhões, centro de processamento de dados de empresas e até veículos aéreos não tripulados (vants). “Temos recebido muitos pedidos e o que falta agora é produzi-las em série”, diz Ett. No plano de negócios da empresa, formatado pelo consultor Luiz Carlos Rocha Paes, já está prevista a produção, em 2014, de 213 baterias para caminhonetes, ônibus e até pequenas motocicletas. A previsão de faturamento é de R$ 25 milhões. “Mas a previsão potencial da demanda em 2014 deverá ser de 966 baterias, o que deve ser coberto por importações”, diz Paes. “Acreditamos que a Electrocell possa ter 22% do mercado”, diz.

Para a CPFL, que começou a construir esses carros elétricos em 2009, as baterias nacionalizadas garantem a continuidade e o avanço no projeto. “Os carros elétricos são para a CPFL um exercício de demonstração da tecnologia, para verificarmos como ela funciona no dia a dia. Não é um projeto de pesquisa e desenvolvimento; nós queremos demonstrar que é possível fazer carros elétricos no Brasil e já compramos quatro da Edra”, diz o engenheiro Marcelo Rodrigues Soares, coordenador do projeto na CPFL, empresa que investiu cerca de R$ 3 milhões na compra dos carros e das baterias. “Nos nossos testes verificamos que o custo em rodar com esse veículo elétrico é de um quarto (1/4) o quilômetro rodado com gasolina”, diz Soares. O Aris já está homologado no Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) desde março de 2010 e apto para rodar em todo o país.

Apesar das boas perspectivas para es-se novo mercado, o preço das baterias deve assustar alguns 
consumidores. “No Brasil precisamos ver o quanto o consumidor está disposto a pagar a mais em relação a um veículo com motor a gasolina, por exemplo, para ter algo mais eficiente na redução da emissão de CO2”, diz Francisco Nigro, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e assessor técnico da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. “A perspectiva é que, ao longo dos próximos anos, o preço da bateria caia e se torne mais viável para o mercado automotivo”, explica Nigro.

Via Revista Pesquisa

A vez das baterias
Bateria
Bateria de lítio
blog da engenharia
Blog de Engenharia
Blog Engenharia
Carro elétrico
dicas de engenharia
Dicas do curso de Engenharia
Engenharia no Brasil
Estudantes de Engenharia
site da engenharia
site de engenharia
Site Engenharia

Eduardo Mikail

Engenheiro Civil, empresário e empreendedor digital. É fundador do Engenharia 360 e sócio-fundador da Bronks content., produtora de conteúdo e projetos digitais. Formado em Engenharia Civil e Administração com especialização em Marketing pela ESPM, já trabalhou em uma das maiores construtoras do país e hoje está à frente da Mikail Arquitetura e Engenharia. Interessado por tecnologia, iGadgets e nas horas vagas curte viagens, música e fotografia. Segue lá no Instagram @eduardomikail

mais
Engenharia 360 Engenharia 360

VEJA TAMBÉM

6 Resultados
O que você precisa saber sobre o BIM?
As 3 características fundamentais para você vencer na carreira
Tesla está trabalhando em ventiladores pulmonares feitos com partes de carros
6 dicas para otimizar seu home office | Lista 360
Robô delivery de medicamentos desenvolvido pela USP pode evitar contágio por coronavírus
Bioesterelizador desenvolvido em universidade paraibana pode atuar como mais uma frente contra coronavírus
Podcast 360
Ouça ou baixe podcasts
exclusivos da engenharia
Ver Todos

RECOMENDAMOS PARA VOCÊ